Antes eu pensava em escrever e pra mim era um estado tão maravilhoso de ascese que apesar de ter escrito tanto por tanto tempo eu nunca vou ser capaz de explicar – era como subir prum mundo superior de entendimento e galgar degraus numa escada que não existe em qualquer parte fora da mente e de cima de um monte contemplar o mundo. Agora se eu sento pra escrever eu me sinto preguiçosamente agachando e preparando meu corpo que não existe em lugar nenhum fora da mente pra descer uma daquelas escadas verticais particularmente desconfortáveis de descer, pra sentar num porão com estúpidos rostos imaginários pra quem eu preciso falar repetida e pacientemente coisas simples muito bem acompanhadas por movimentos explicativos e pantomimas absurdas infantis para agradar esses rostos e esperar que na falta de compreensão eles possam ao menos mostrar os dentes. Não há nada que eu possa dizer, interpretar ou dançar que vá significar tudo que acontece agora ou que aconteceu há pouco ou que jamais poderá acontecer de verdade aqui dentro enquanto meus olhos e dedos e boca e tantas outras partes do corpo experimentam uma bala, um beijo, uma luz, um som, qualquer toque e mesmo esse sentimento pulverizado e indefinido de que simplesmente é agora e que eu existo. E minhas impressões sutis não vem mais em palavras – nem vem o tempo passando de forma tão diferente das letras e linhas chegando organizadamente em filas que vão se acumulando porque uma única linha gigante seria comercialmente inviável. Pode-se construir tantos caleidoscópios num texto, é tão bonito. Mas não é mais subir num mundo lindo fazendo cara de amber vision,
Apesar de tudo quando estou aqui é claro que em poucos minutos há um transe e pensamentos que chegam e se transformam em palavras no último segundo, sem eu nunca saber exatamente quando e há o som e o impacto e o sentimento granulado reconfortante dos dedos encontrando por conta própria cada letrinha no teclado, de forma que se eu parar pra pensar em onde fica o quê eu seria como uma aranha tropeçando na teia – aranhas não tropeçam nas teias, obviamente, e daí questiona-se as supostas vantagens divinas da tão citada diferença dos homens e dos animais.
Eu acho beleza aqui, é lógico – você me atira no deserto e quando achar uma sombra se eu não estiver com sede provavelmente vou me divertir ao observar calangos.
Não tem mais aquela motivação de estar fazendo algo de profundamente comunicativo uma vez que seria impossível pra mim imaginar que alguém realmente poderia imaginar por um texto qualquer coisa que eu não poderia dizer – qualquer coisa que seria impossível dizer com palavras e linhas contínuas num monitor ou numa folha de papel. Palavras e palavras e pare um pouco pra pensar em palavras, não na ideia que você faz delas, mas simplesmente nesses símbolos aqui na frente rabiscados em qualquer lugar: palavras. E pense em * e em e em µ; em 8, em ø, em $, em @, {, €, ¤, ß, essa porra toda quer dizer alguma coisa pra alguém, são só rabiscos. Os sumérios ou seja lá quem for que começou com isso não estava pensando em filosofia, mas provavelmente querendo que as pessoas entendessem algo como “Não pisem na minha grama, porra”, etc... Não estavam em contato direto como universo ou uns com os outros ou qualquer outra coisa – eles certamente já eram aranhas tropeçando nas teias e precisavam de placas.
Será a “língua” feita de símbolos uma prosopopeia, ou uma sinestesia complexa entre paladar e sentimento intelectual completamente contida numa única palavra?
De qualquer forma, ainda que impossível dizer qualquer coisa de realmente profundo ou significativo que não seja apenas mais banalidades, impressões embaçadas ou mais instruções sobre como não se tropeçar na teia, algo mágico em algumas pessoas ou em algumas relações ou em alguns instantes fazem como um flash e sem que quase ninguém perceba algo que não deveria passar – por qualquer lógica lei das coisas – foi parar do lado de lá, escondendo-se por trás de qualquer janela, rindo baixinho. Só que eu queria às vezes encontrar ainda outra forma de encostar no mundo e me comunicar sem tanto
porra
cansei de escrever.
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não consigo ler seus textos. esse cinza escuro me deixa cega neste fotolog tão obscuro. aliás, você é mto misterioso, sr daniel. hahahaha