"Transamos na janela, devagar, em meio aos sons…”
9/29/09
por Gustavo Gitti
' “Passamos a noite de janelas abertas. Tínhamos levado uma garrafa de Brunello para o quarto, e foi difícil dormir, talvez por causa do vinho. Transamos na janela, devagar, em meio aos sons, ao cheiro e à vista da noite nos vales.”
–Contardo Calligaris, em O Conto do Amor
Eu não quero nada mais. A gente mal se conhece, eu sei. Nosso breve contato, porém, já foi suficiente para me lembrar que às terças você sai do trabalho às nove. O suficiente para saber esperar, recebê-la com um beijo e andar até o seu apartamento, sempre do lado da rua.
Você não quer, mas você sabe que eu vou subir. Aquilo que você não disse, já ouvi. É estranho abrir a porta assim, para um estranho, né? Não, não perca tempo fazendo comida. O vinho aberto na geladeira já nos basta. Miolo Seleção (Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir). A música, coloque uma que fale por nós e não se sobreponha ao silêncio. Me diz, a quadra do SESC Pompéia é boa?
Venha e não me lembre que dia é hoje. Não me lembre que as pessoas passam oito horas por dia fazendo coisas que não levam a lugar algum. Não me lembre de quem sou, não fale de você. Eu já sei, você é essa que surge a minha frente, você é essa que está onde a vejo. Depois teremos tempo para contar histórias, agora é hora de fazê-las.
Não apague as luzes, não esconda o que você acha feio. Se vim parar aqui, é por que já amo cada defeito seu, cada imperfeição. Aquele dente torto que você passou anos tentando endireitar, eu o adoro. Suas costas enviesadas, foco diário de sua fisioterapeuta, eu me deslizo aí. Desculpe-me, eu não respeito a visão que você tem de si mesma.
Sua varanda é uma coisa. Por que ainda não colocou rede aqui? O pessoal todo aí fora, enlouquecido, só corre assim porque não sente esse vento. A noite respira. Lembra ontem quando nos perdemos na Augusta? Eu quero mais disso contigo. Não ter compromisso, não ter hora, me perder na cidade, não saber para onde ir, desplanejar. Quero transgredir, infringir alguma lei desconhecida. Quero segurança também. Ser careta. Quero clareza, saber onde ir, planejar, sonhar.
Nem segurança, nem incerteza, mas o prazer de ambas, uma de cada vez, cada qual com o sabor que lhe é próprio. Passar por todas as experiências, não pelo mérito delas em si mesmas, mas pela liberdade. Gozar de vagar.
Não quero mil posições, superorgasmos ou apetrechos de sex shop. Não quero provar nada, não quero ser nada demais. O que quero já tenho quando desisto de querer. Simplicidade da qual não precisamos falar. A rede que ainda não há, duas taças de Miolo Seleção, a respiração da noite, suas costas e eu. Viver, assim, de janelas abertas, sabe?"
meeeeeeeu... achei esse texto fodástico!
ai ai ai
Tenha uma ótima semana.