Assombros e Alentos
10/22/08
Há uma luz que brilha em meu peito – é o tempo. E desde que aquela porta se fechou eu passei a observar o momento que a luz do poste se acende e se atreve a entrar pela fresta da minha janela. Não tenho argumentos, mas sinto o vento de verão arrepiar a pele por detrás dos cabelos; alguém disse que, ainda, é assim que se compõe um novo samba.
Eu fechei os olhos, quando pensava que estavam abertos e, a verdade se recompôs num novo ritmo e então, quando os olhos abriram, eu preferi fechá-los para que, desta vez, pudesse perceber a vida a partir de outros sentidos, quem sabe, ao toque das suas mãos sobre meu corpo enrugado, aos sussurros de suas palavras sobrepondo o meu silêncio, aos seus suspiros em torno dos ouvidos, a saudade que a sua ausência mimoseia.
Nesse quarto, onde amores acabam sozinhos, resta essa beleza ínfima, resta esse descontentamento, resta essa moldura sobre essa imagem vazia, fatigada, tão clara como a escuridão da noite vadia.
Disseram-me que não há limites para o amor, o poeta chamou-o de infinito, o boêmio declamou-o dureza, o louco de aprisionamento, embora quisesse eu, apenas, sugar com uma seringa esses pequenos MLs que o diferencia da amizade, depois cair num êxtase profundo e, quando acordasse, visse sobre o chão o sangue da minha memória espalhado até o canto, com a simplicidade de quem vê um desconhecido.
Chegará o dia em que a decepção já não terá mais vez e cairá sobre o peito o arrependimento, a dor há de adoecer alegremente o fingimento dessa felicidade, verá a vida zombando dos sentimentos, depois buscará por respostas e há de se lembrar que não existiram perguntas. Ai, ali ou em algum lugar o tempo passou, então perceberá essa mesma luz que arde em meu peito e dirá: É o tempo, com a mesma suavidade do meu sorriso ao falar de amor sobre a mesa cheia de cinzas, livros e recordações, completamente embriagada de vinho, cheirando o amargo do cigarro, sem aquele doce de batata-doce e já não poderá me esquecer.
Sophia Welcker
:*