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Separação - Vinícius de Moraes
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Separação - Vinícius de Moraes

8/29/10
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Voltou-se e mirou-o como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ele a olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
Viu-o assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ela como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ele. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ela e ele. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ela ficou retida, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-lo ali ao lado, e dela separado por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dele. Sabia que era aquele o seu amado, por quem esperara desde sempre e quem por muitos anos buscara em cada homem, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ela teria, mesmo como uma autômata, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dele cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma masculina que não era nenhuma outra forma masculina, mas a dele, o homem amado, aquele que ela abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-lo em sua dolorosa mudez, já envolto em seu espaço próprio, perdido em suas cogitações próprias - um ser desligado dela pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...








in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "Para viver um grande amor"

Photo uploaded at 3:58 PM

Guestbook Comments (2)

olha só... você puraqui... que surpresa...

e esse doido ai em cima???? kakakakakakaka

bjs

Ele a olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse ...

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