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A solidão é mesmo libertadora. Libertadora, pois diz a verdade. Nós nascemos e morremos sozinhos.
Na noite do dia 31, achei que havia tido uma idéia genial. Havia me programado para terminar o final do novo livro na hora da virada, sentindo-me sozinha, ouvindo os fogos de artifício. Achei que seria uma experiência e tanto, por ser tão deprimente e tão imprevisível. Algumas pessoas tentaram me convencer de abandonar a idéia, mas permanci fiel a ela. Lembrei do V e tentei não me desesperar. Finalmente conseguiria passar para o papel toda a emoção e o drama que o encerramento requer. Passei o réveillon em casa, afinal. Passei com minha mãe. Ela foi dormir cedo, pois a escolha dela é não sair nesta data. Como eu, mamãe prefere não ter ninguém do que se enfiar em um programa de índio que só vai causar estresse. Então constatei: estou sozinha porque escolhi e isso me torna mais forte.
Fizemos simpatias e feitiços, e usamos as cores que representam os desejos que queremos realizar. Comemos e bebemos bem, mas nem bêbada fiquei. Fui reescrever o final de "Mil e uma noites de silêncio" e me senti estranha, desprevenida. Não estava deprimida, desesperada ou sozinha. Estava apenas no computador, enquanto metade do mundo festejava uma mudança no calendário. Pensei bem e fiquei orgulhosa. Ao escolher o retiro, também dei mais um passo para frente. Pratiquei o desapego e enganei o relógio. O tempo não é externo e nada disso é natural.
Ano passado, lembro de ter pedido para a ressaca me abandonar para sempre. Este ano, ela não veio pela primeira vez.
Vocês devem estar se perguntando: "Mas ela não foi convidada para nenhuma festa?". Fui, mas isso não quer dizer nada. Não seria natural abraçar pessoas que eu não conheço ou que não gosto. É natural abraçar minha mãe, que realmente deseja meu sucesso. Tudo isso parece papo de careta, e fico perplexa comigo mesma, mas a verdade é que beber para fazer um monte de merda com estranhos e acordar vomitando e passando mal no novo ano, já me encheu a porra do saco. De qualquer forma, mesmo se quisesse, estava presa na Barra da Tijuca.
Resolvi treinar meus poderes, ler cartas, acender velas. O chato de passar a noite fazendo feitiços é que, acostumada com filmes de bruxaria, sempre fico esperando algo mágico acontecer. O resultado, porém, não é imediato. A natureza não é imediata. A natureza vai castigar muitas pessoas nos próximos anos.
"Mas ela não podia viajar?". Podia. Resolvi ser consciente, porém. Não quis gastar dinheiro inutilmente num momento de crise e de desespero no mundo. Prefiro treinar minha intuição, pois é dela que eu mais preciso. Sinto que é hora de economizar. Aliás, até as crianças sentiram. No Natal deste ano, minha linda Vivi de 8 anos me disse:
- Engraçado! É o primeiro Natal em que eu não tive vontade de comprar presentes. Não tô sentindo o clima natalino...
Eu também não senti. Fiquei frustrada com o consumismo do mês de dezembro. Não senti o clima das comemorações de fim de ano que sempre amei, e isso é porque sei que o mundo está mudando. A mudança ainda está no início, mas os próximos anos vão nos mostrar muitas coisas, vão tentar nos ensinar muitas lições.
A evolução está nas nossas mentes.
"O que há por baixo dessa máscara não é só carne, o que há por baixo dessa máscara é uma idéia. E idéias são à prova de de balas."
We only got 4 "minutes" to save the world?