6/27/09
Ele segurava as mãos dela com força. Sorriam e dançavam na noite de formatura: eram jovens, estavam juntos, eram tudo ainda pela frente. Essa é a nossa música – ele disse sem pensar tanto e ela mais adiante completou, concordando – Olha essa letra, é tão a gente! - e inclinou-se para chegar ainda mais perto e deitar em seu peito, seguro e protetor.
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Conforme rodopiavam no salão lotado de parentes, amigos e outras pessoas tão importantes de suas vidas que testemunhavam aquele momento, ele sussurrava em seu ouvido que estavam dançando a música deles como fariam para sempre, para sempre. Viriam filhos, e a casa e a vida. Ela estava linda vestida de branco e efeitada com pérolas e alegria e concordava, as lágrimas misturando o rímel com emoção conforme escorriam de seus olhos.
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Afundado na areia da praia atemporal onde tudo era sol, amor e lua de mel, lá estava o fiel radinho de pilha. E a música. Dançavam na areia e riram, cumprimentando estranhos rabugentos e estranhando que alguém fosse triste num dia lindo como aquele. É a nossa música, entende, eles explicavam. E continuavam, felizes, a ser como se sempre tivessem sido assim. E como se sempre fossem ser.
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Uma tarde de domingo, enquanto ele lia no jornal a vida que ela escutava pelo rádio, puderam ouvir as primeiras notas daquela música. Demorou um pouquinho, mas assim que entrou a voz ela reconheceu: trocaram olhares afetuosos e sorrisos nostálgicos de “é-claro-que-eu-me-lembro”. Cantaram juntos. Então ela foi ocupar-se do jantar, ainda cantarolando o refrão.
Era noite de sexta feira e chovia com violência. Ela organizava os livros na estante, como que tentando distrair-se; mas acabava por tentar organizar seus sentimentos. Aqui vai a frustração – ao lado do ressentimento, exemplar de capa dura, claro – e aqui toda a coleção de noites em que ele chega tarde em casa. Coletânea grossíssima, as piores brigas aqui, ao lado do Guerra e Paz. Cansada, ligou o rádio em meio aos livros ainda espalhados e deixou-se ficar deitada no chão, ouvindo a música que esperava que abafasse o som da chuva, o tic tac do relógio que a levava pra mais e mais perto dos quarenta anos e, quem sabe, também a falta de companhia que gritava entre as paredes da sala há tanto mobilhada com tão bom gosto, a mistura das coisas dos dois: uma vida que se juntara, misturada por demais. Então o DJ anunciou a próxima música. Ela não teve reação ao escutar o título e só lá pelos acordes finais é que percebeu, sobressaltada, que era aquela música. Aquela. E ela não sabia mais a letra. Ela levantou-se de um salto, tentou repetir. Não sabia mais, nenhuma frase sequer! Não tinha jeito, não tinha não.
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A última vez que escutou aquela melodia foi num táxi, a caminho do hotel onde ficaria até saber o que fazer. Até saber como fazer, como ser ela e só ela de novo. Reconheceu, com amargura, a voz e a letra e pediu ao motorista que mudasse de estação, por favor, conforme apertava com força a mala junto ao peito, junto à dor. O taxista obedeceu, lamentando consigo mesmo, entretanto, porque aquela era uma música tão bonita...
cherie, você sabe que eu amo sempre e me acho sempre aí *____*