O Co(r)po.
11/16/09
O copo estava em cima da mesa.
Sozinho, parado, quieto como os copos costumam ficar. Vazio.
Ela olhava-o de relance constantemente; não conseguia evitar.
Aquele copo ali, parado, na beirada da mesa de pinho. Vazio. Transparente, sem cor. Duas características que uniam-se contra ela: sua translucidez só evidenciava o quanto vazio ele estava. Toda aquela ausência de coisa ali, gritante, pro mundo todo ver.
Ela tamborilava os dedos como quem está distraída, mas ela não estava. Ela estava mais alerta do que nunca. À espreita.
Os carros passavam na rua, buzinando, a vizinha caminhava no andar de cima, toc toc toc seus saltos andavam pra lá e para cá. O gato roçava-lhe as pernas afetuosamente com segundas intenções, a água esquentava no fogão. Todos cumprindo suas funções de ir e vir e ser e fazer e amar e enganar. Mas ela não. Nem o copo.
O que deveria estar cheio, estava vazio, seco. Nem uma gota. Ninguém podia tomar, ninguém quereria um gole que fosse, quanto mais embebedar-se...porque não tinha nada ali. Nada. E estava tão na beiradinha. Tão quase. E é o quase que mata. Corrói.
Aproximou-se lentamente, casualmente. Pôs-se frente a frente com o objeto e então encarou-o em toda a sua falta de coisa, falta de conteúdo, falta de propósito.
Não era bonito; se ao menos isso fosse poderia ser um enfeite enquanto estava lá daquele jeito. Mas não era, era sem detalhes, liso, reto.
Pra não dizer que era igual a todos os outros copos - não, nem isso ele era - ela notou a borda lascada, faltando um pedacinho. Mas um só.
Quando ouviu a chave na porta, o familiar som que ainda lhe era tão estranho (nunca tinha deixado de ser, nunca deixaria.), ela parou de pensar e prendeu a respiração: empurrou o copo com a ponta do indicador, lentamente, mas com firmeza.
O barulho de vidro, estilhaçado. Todos os pedacinhos pelo chão.
O gato deu um pulo e soltou um miado agudo, indignado e ressentido.
- Que isso!, mal chego e você já está quebrando a casa? - ele disse com voz-de-quem-sorri enquanto dava-lhe um beijo distraído no rosto, desviando dos caquinhos pelo chão.
- Eu esbarrei um segundo antes de você chegar, estava aqui tão preocupada com o fogo que nem percebi...- mas o olhar dele sobre ela não durou nem metade da frase, de forma que ela foi diminuindo a voz até parar. Ele já estava sentado no sofá.
Enquanto ligava o jogo na TV e afrouxava o nó da gravata, ele perguntou casualmente o que tinha para jantar.
- É macarrão. Sai logo logo, já vou até arrumando a mesa. Só preciso limpar essa bagunça.
O marido e o gato provavelmente não perceberam, mas ela sorria pelo canto da boca, conforme catava os cacos do vidro e daquele momento que passara, ajoelhada, pelo chão.
Afinal, ele não estava mais vazio agora, estava?
lindaaa *__*
bjs