Um dia a mais
8/19/08
Um certo dia, quando tinha quatorze anos, meu irmão me convidou para assistir a uma orquestra no masp num sábado a noite. Lembro-me bem daquela sensação. Senti-me fora da Terra por um momento. Foi por essa época que criei o hábito (estranho, é verdade, para um garoto de quinze anos) de assistir orquestras aos sábados a noite no masp. Hábito que durara dois anos.
O tempo passou. Muita água rolou. As pedras também rolaram. Passei a ser um cidadão digno nas sábias palavras de Raul Seixas na canção "Ouro de Tolo". E, humano que sou, deixo-me levar pela turbulência de problemas que assolam a minha e a sua vida. O tempo seco. O trânsito carregado. O excesso de gente.
Pois hoje decidi me dar um pequeno luxo. Tirar os pés da Terra um pouquinho. Após um rápido almoço fui à livraria cultura. Esse gesto já seria um pequeno luxo. Ainda que a livraria cultura tenha se tornado um supermercado, livros continuam a me seduzir.
E qual não foi minha surpresa ao descobrir que todas as terças na hora do almoço a cultura promove um show de jazz em seu auditório. Por trinta minutos tirei os pés da Terra. O líder da banda apresentou o que seria sua primeira música "What are we living for".
E me senti mais vivo. Mais humano. Carregado por uma onda que volta e meia me inunda de felicidade. Enquanto escrevo, ouço o Bolero de Ravel. Até tinha pensado em falar da áspera aula que tive agora de filosofia analítica. Mas não nesse momento. Já dizia o Eclesiastes. Há tempo para todas as coisas.