A pomba de Leibniz
8/8/08
Estava descendo ontem pela Pamplona e senti, de súbito, algo quente no meu ombro. Olhei para trás e estiquei a camisa. Tinha acabado de ser brindado por uma caca de pomba. Algumas pessoas dizem que traz sorte. Outras que dão azar. No meu caso, não pensei numa coisa nem noutra. Pensei em Leibniz.
Se Leibniz estiver certo, estava predestinado que ontem pela manhã eu desceria a Pamplona e no primeiro quarteirão depois da Paulista uma pomba me acertaria em cheio. Ao me fazer, Deus já sabia que a pomba me alvejaria no dia 07 de agosto de 2008.
Mas eu poderia ter me desviado da pomba? Ou, em outras palavras, tenho um livre-arbítrio que pode me fazer escapar àquilo que já está traçado por Deus? Sim e não, para Leibniz. Sim, eu tenho o livre-arbítrio. Não, eu não poderia ter alterado o destino. Segundo o filósofo, do ponto de vista lógico, eu poderia ter optado por outro caminho. Poderia ter descido a Campinas. Mas, Deus, ao me fazer, me dotou de certas inclinações. E por mais que "teoricamente" ou ainda no campo da lógica pudesse desviar do meu caminho, eu não o faço. Deste modo, meu livre-arbítrio não é ilimitado, tampouco indeterminado.
Deus também não escapa de certas "determinações", segundo o pensador. Para Leibniz, existem alguns princípios que existem desde sempre e não foram criados por Deus. São os princípios lógicos. A saber, os princípios de identidade, não-contradição e terceiro excluído. Deus, ao fazer o mundo, o fez com base nesses princípios. E mais: Deus é guiado sempre pelo princípio do melhor. Este é o melhor dos mundos possíveis.
Gosto do otimismo de Leibniz. Gosto da habilidade lógica por trás de tudo o que existe. Quando penso nisso eu "literalmente" entrego a Deus. A pomba? Pensei nela e na mãe dela logo após essa digressão.
simple and brilliant, funny.