6/20/06
A maior parte das análises ou retrospectivas de discos de rock gaúcho a partir dos anos 80 deixa de fora o Aristhóteles de Ananias Jr. Só posso atribuir isso à preguiça ou má vontade com a banda. Porque é impossível não parar pra refletir um pouco sobre o trabalho deles, mais especificamente esse único disco, lançado em 1996.
Não existe nada parecido em outras bandas gaúchas, o mais próximo seria a Graforréia Xilarmônica, mas mesmo assim a sonoridade acaba ficando beeem distante. Ninguém se arriscou a abusar da dodecafonia e do atonalismo como o Marcelo Birck faz aqui, acompanhado de ótimos integrantes como o Pedro Porto no baixo e o Luciano Zanatta no sax-alto e de músicos convidados como o Diego Silveira na bateria e o Ricardo Frantz no violino.
O disco começa com “Canibalismo Odara” e o nonsense do verso “Desperta a lêndia adormecida na meleca dela”, pra em seguida quebrar o ritmo ao som do refrão - poderia ser chamado assim? - que cita o nome da faixa. E quebra não só uma vez, mas várias vezes durante a música, o que é uma característica marcante desse álbum. “Heavy”, como o próprio nome diz, é pesada, com vocal estilo metal e bateria marcadona. E segue assim até quebrar e entrarem os versos “Abacaxi, São Borja, Uruguaiana, Carazinho e Quaraí/Abacate, salada de repolho, abracadabra, chocolate”. A sonoridade das palavras é fundamental nas músicas do Aristhóteles. Independente do sentido, o que importa é usá-las a serviço do ritmo.
“Grenal do Amor” começa em clima de improviso, com parada pra contagem e tudo. A letra faz uma analogia do maior clássico do futebol gaúcho com um relacionamento amoroso. Impagável, em versos como “A cabeça está no norte e os pés estão no sul/As artéria são vermeia e as veia são azul/Sua paixão era tão forte, seu amor era incomum/Entrou bola, saiu bola e acabou em um a um/Eu te amo e tu me amas, você quer, eu também quero/Nosso caso amoroso, um sabor tão saboroso, zero a zero”. “Futebol Metal” abre com um pandeirinho que parece anunciar um samba, mas que logo descamba pro metal, com guitarra mais do que pesada. Como é de praxe, a certa altura o ritmo muda, comandando pelo sax. “Na beira da praia, na beira da areia/O frango, a farofa, discutindo futebol”, diz a letra.
Apesar do nome, “Pagode Acebolado” vem com base de rock, com guitarra, baixo e bateria comandando. O peso vai aumentando até entrarem os versos “Meu amor é bom tomar cuidado, que eu não sou de brincadeira, eu sou panela de pressão/Liga logo o ar-condicionado que tem mosca varejeira varejando o vaneirão”. E eis que entra um vaneirão mesmo (ritmo musical tradicional do Rio Grande do Sul), pra desconcertar tudo. Como se não bastasse, ainda há espaço pro pagode do título, quando o pandeiro volta a aparecer. Sim, tudo numa mesma música. Sim, isso é Aristhóteles.
“Trilha Sem Rumo” traz a participação do grande Plato Divorak nos vocais, numa sobreposição de vozes que viria a marcar os trabalhos seguintes do Birck. Guitarras distorcidas e baixo marcado dão o clima da faixa. A letra joga com aliterações mil: “Sovaco da vaca, sola do cavaco, tava boa a batucada cafungando o sovaco da vaca/Sola do cavaco, autêntica batata abilolada lá na batucada da ? da boa”. E o resultado é muito interessante, difícil é acompanhar o que é cantado numa primeira audição. “Free Way” tem uma letra surreal, inspirada no jogo de videogame homônimo: “Uma galinha que queria atravessar a rua/Mas os carros não paravam no sinal vermelho/Sem respeitar nem uma velha senhora que também tentava/Com a ajuda de dois escoteiros, mas os carros não paravam no sinal vermelho/Se o carro para todo mundo mete o dedo na buzina/Será possível que ninguém possa fazer uma gentileza/Coitada da galinha, coitada da galinha que queria atravessar a rua e não podia” O sax é muito forte, dominando a música.
“Milonga” - que também vem a ser um ritmo tradicional do estado - é cheia de colagens e mudanças de ritmo, e serve como um resumo da capacidade criativa do Birck e cia. O disco está fazendo dez anos e permanece muito atual. Tão atual que ninguém se arriscou a fazer algo que se aproxime. Só o próprio Marcelo Birck, anos depois. Mas isso é assunto pra outro post, que o que interessa aqui é o Aristhóteles de Ananias Jr. e o seu único disco. Um clássico. Mesmo.
Só consigo pensar na importância desse registro!