Fechei os olhos, tomei fôlego e assoprei. Enquanto todos aplaudiam pela festa eu contrariava a regra e fazia naquele momento o meu pedido, simultaneamente apagando as velas do bolo. Só no trajeto até a altura do bolo foram ao menos três diferentes desejos, mas só poderia ser um. Saco. Minha contradição a algumas regras é inversamente proporcional a minha crença nas superstições. E aos quarenta e seis do segundo tempo o desejo saiu. O que foi que você desejou, gritou alguém de algum lugar, e rapidamente outra voz respondia que não vale, senão o desejo não realiza. Ao escutar tais comentários eu reparei no bolo, desejo fresco ainda na mente e aos poucos o silêncio ia aumentando ao redor. Foram instantes que, para mim, duraram algumas horas: era mais um aniversário, a mesma sensação recorrente de anticomemoração, um belo dinheiro gasto para os convidados e, ao término, a sensação de tempo perdido e um vazio estranho. E claro, um detalhe geralmente comum a muitos: o pensamento que talvez dessa vez seja diferente. Minhas crenças...
Alguém liga o som novamente, cortando minhas horas de devaneio em minutos e fazendo as coisas voltarem ao normal. Ávida mente que, em questão de milissegundos já retoma alguns pensamentos e se articula para que o corpo tome ações ao meu favor. Viro-me e, com um susto percebo que a mente de alguém foi alguns instantes mais rápida. Você já nasceu ou foi mais tarde? Já, já nasci, foi de madrugada. Então eu posso te dar um abraço de parabéns mesmo, feliz aniversário! Seu corpo colou de uma forma suave, porém firme. Compassadamente a respiração dela foi crescendo junto com a firmeza do abraço, pausando no momento exato em que fechei os olhos.
E como num jogo, algumas peças vão se movimentando sem que eu perceba e outra pessoa me puxa pelo braço e o outro já me entrega um copo de whisky. Chega mais, lembra daquela história engraçada na praia? Foi um movimento tão rápido que ao abrir os olhos novamente me vi em outra roda, outras pessoas, outro assunto completamente desinteressante que me obrigou a dar um bom trago no whisky e tentar me concentrar no que eles falavam que deveria ser tão engraçado. Era uma história de alguma viagem feita há alguns anos atrás, mais uma daquelas histórias que todo grupo de amigos sempre carrega para lá e cá contando para os outros para alguns motivos de comédia alheia. Sempre funcionava, eu mesmo já tive meu usufruto de tais histórias. E, chegando ao ápice, mais uma vez o jogo se formou e ela passou pelo meu campo de visão, copo de vinho na mão e visão fixa em algum canto que não me atentei qual seria. Não queria saber onde ela estaria olhando, apenas o olhar que eu não consegui terminar naquele abraço. O olhar dela, nada mais. Não o tive, e ela se juntou em outra roda de amigos.
A noite foi seguindo. Copos e doses espalhadas entre as horas durante a festa e a incessante curiosidade de ver o olhar que não me abraçou. Às vezes meu olhar caçava por ela, fazendo o jogo gostoso do flerte até que ela desviasse o olhar, o que aconteceu algumas vezes. As outras eu não resistia, enrubescia e zonzeava círculos com meus passos, entregando minha timidez. Três ou quatro pessoas encostaram e comentaram meus reflexos, uns falavam que o corpo fala, outros que eu estava deixando na cara, que não era assim e cuspiam opiniões às dezenas. Mas foi quando a quinta pessoa encostou seu copo no meu braço e disse que ela tinha entregado o jogo que eu me dei conta que ela estava já se despedindo do restante do pessoal. Ao perceber ela se aproximar do aniversariante, adiantei-me calmamente alguns passos. Já está indo? Sim, não estou acostumada a ficar muito tarde. Te acompanho até o portão.
E ela foi caminhando, um passo à frente do meu, dando o sentimento de que fugia, que nada queria. Meu sentimento pessimista, que sempre desperta nestas horas. O trajeto era curto, poucos segundos, no máximo um minuto, e uma eternidade de pensamentos explodindo na ávida mente. Certo, palpitação de quinze anos, mãos suadas de quinze anos, nó na garganta de quinze anos no corpo de vinte e seis. E, com o embalo dos braços ao descer as escadas em direção ao portão, segurei sua mão e puxei de leve. Desculpa, não resisto. Não dá para resistir. Toquei seu rosto e levemente fui trazendo perto do meu, até o fatídico beijo. E aconteceu.
Foi você quem perguntou o que eu desejei? Bem, acabou de se realizar.
On June 19 2009
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