5/6/06
Ainda partindo do orkut...
Sobre a necessidade da gente de sermos gostadxs, eu acho que ela é uma das coisas mais essenciais do ser humano, afinal, aquela história, nós somos um animal social e blá. Queremos pertencer, queremos ser notadxs. Sempre. O orkut eleva isso à enésima potência, na verdade ele é a expressão dessa nossa cultura mega-individualista, ego-promotora.
Quanto mais alto estiver o ego, quanto maior o "egocentrismo", mais forte a individualidade, ou melhor, o individualismo.
E cada indivíduo é uma célula de consumo, A intenção é produzir-se cada vez mais e mais poderosas células de consumo, cada vez indivíduos mais auto-centrados, uma vez que com um pensamento coletivo, consome-se de forma coletiva, ou seja, consome-se menos. Sendo a idéia elevar o consumo ao seu nível máááááximo, que multipliquem-se ao máááááximo as "células de consumo", e ao máximo o poder de consumo de cada "célula". Pra isso tanto incentivo ao individualismo.
Daí também pode partir-se pra a questão da sectarização de mercado, criando-se mercados dentro de mercados, criando-se os mais variados tipos de grupos, extratificando-se os níveis sociais ou culturais.
Por exemplo, "precocezando" a infância, com a ajuda da mídia, a indústria potencializa loucamente o mercado que se constitui das nossas pobres crianças, vendendo por exemplo celulares pra crianças de oito anos, e criando outros desejos idiotas a serem difundidos e aceitados como normais.
Ou sectarizando culturalmente a juventude bitolada que constituímos nos chamados "estilos", cada um com seu nicho mercadológico (ex: estilos de roupas, de música, de leitura, de interesse "cultural")... cultura mtv... Enquanto todxs, por mais diferentes que se considerem entre si, vão comemorar suas bem-aventuranças num bar regando-se a álcool de transnacionais, fumando seus cigarros de transnacionais, e perdendo-se em vícios e dependências esgotadoras a que elxs mesmxs se dão voluntariamente, pra preencher aquele nosso conhecido vazio pós-moderno, sem percebê-lo.
Ok, posso ter feito aqui uma estereotipagem barata da juventude, mas talvez se formos ver direitinho, a maior parte acaba indo por aí mesmo, com pequenas diferenças que acabam por funcionar de maneira análoga. Ou talvez não...
Também um indivíduo altamente egocentralizado vira o rosto com muito mais facilidade para toda a putaria que sabidamente acontece no mundo para nós o termos da forma como o temos. Por exemplo eu leio no jornal uma notícia sobre uma chacina policial na baixada e posso até me tocar genuinamente por aquilo, mas logo depois eu entro no orkut e começo a passear entre as/os minhas/meus amigas/os e combinar a festa do fim de semana e de repente, dez minutos depois, é como se eu nem tivesse lido aquela barbárie toda, é tudo tão alegre e todo mundo tão perfeito na perfeição virtual que é tão mais gostoso ficar lá a passear do que encarar o mundo feioso que nos guarda a realidade.
E mesmo que optássemos por encará-lo, mesmo que por uma horinha que fosse, que sensação de poder nos resta a ponto de que nos sentíssemos capazes de com qualquer ação a nosso alcance conseguir transformar alguma coisa daquela realidade que nos desagrada? A juventude sente-se irremediavelmente impotente ante à realidade em que se encontra de modo que qualquer lampejo de esforço não tarda em ser desencorajado por todas as forças a seu redor. A idéia de participação política através do voto já enganou muito mais gente do que o faz hoje em dia, falo especificamente após este atual governo, mas ainda assim outra forma de participação parece inatingível por parte da juventude em geral. As/os insatisfeitas/os organizadas/os da juventude esgotam sua energia potencialmente transformadora em picuínhas e rixas tolas entre "correntes" diferentes que funcionam com a mesma lógica das "tribos" jovens, e mesmo entre as/os ditas/os libertárias/os supostamente iconoclastas se é possível identificar os preconceitos se interpondo a possíveis realizações conjuntas de interesse coletivo. Talvez seja mesmo isso tudo inerente à condição humana, quem sabe; ou talvez seja arquitetura de nosso tempo, vai saber.
É também um indivíduo profundamente egocentralizado que sustenta que come carne sim, porque elx não iria deixar de comer a picanha suculenta delx pra salvar o planeta, imagina! e imagina também se iria adiantar de qualquer merda que elx parasse de comer carne já que outros milhões iriam comê-la por elx e blablabla... E exatamente a mesma conversa se aplica ao indivíduo que hoje compra um carro novo pra se locomover 8 quilômetros da casa ao trabalho sozinho no seu carro fechado numa velocidade que qualquer bicicleta deixaria pra trás...
Isso tudo é fruto de um pensamento individualista que ferramentas "inofensivas" e "divertidinhas" como o orkut e seus congêneres difundem lentamente (ou nem tanto - nossos conceitos de velocidade são outra coisa a se debater em ocasião propícia).
E a questão continua no ar...
Você ter comparado a política com a juventude individualizada e ideológicamente nula foi bem ofensivo e destoante do comum. Estranho.
Julie, você é um baque para o leitor!
E você foi na mostra de curtas?? Se foi, desculpa por não ter ido!, eu não consegui acordar, desculpa, desculpa!