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priscillamenezes's photo from 10/28/08
Permalink | Share: Email Facebook Other

10/28/08
Me disse que perdeu seus sapatos e por isso precisou voltar. Perguntei-lhe se fora culpa da chuva ou das horas confundidas pelo escuro. Respondeu que sim, que ficaria, que sentia medo da mácula, que não poderia mais esperar. Sentamos a mesa. Tomamos chás levíssimos e licores opacos. Nos tocamos e não acendemos nenhuma luz.

Era incrível também o seu rosto, seu jeito de franzir-se, de retrair-se em si. A maneira de ser impassível, sua expressão de descaso. Eu era fascinada por seu rosto entediado, suas feições de puro vazio. Eu passaria meus dias olhando para aquele rosto imóvel, em seu estado bruto de completa inexpressão. Disse-lhe uma vez que poderia conviver com a sua morte, mas nunca com os sinais de seu desespero. Me chamou de louca, disse que a morte não era nada além de desencontro, que meu amor era inteiro perversão. Não soube lhe dizer que se lhe desejava era porque ele me oferecia a visão secreta de seu sono, e porque ele me esquecia é que eu o cobiçava tanto, e por ir embora a todo instante, eu o amava; entregando-me assim ao convívio com seu corpo que era indício máximo de sua impermanência.

Foi preciso suportar uma espera de muitos dias. Ele ainda descalço, experimentando a umidade de nossa clausura. Guardávamos o silêncio que nos sustentava. Ele queria a fuga,eu preparava o arroz, procurando o ponto justo no qual o contato fosse convívio exato entre a quebra e o apego . Ele dançava ao som das chuvas, eu punha baldes no assoalho, para nos proteger das ofensas do mundo. Ele ensaiava quebrar os vidros, eu preparava a cena do crime.

Era sua mão que me alcançava primeiro e minha resposta era encolher o meu corpo que se diminuía para então se alongar na região exata do seu toque. Dilaceradores, os dois dilacerados. Nossos corpos se golpeavam mutuamente, como relevos um do outro. Para cada gesto imprimido, um eco em resposta. Numa relação de espelho, frente a frente, não nos apartávamos, fazendo do gesto de um sempre reflexo do gesto do outro, e assim como todo reflexo, convivendo sempre pelo avesso, doando-nos um ao outro na medida de nossas infindáveis impossibilidades.

Ataco o seu corpo que já não se defende. De tantos modos, com tantos golpes e lances de mão, quando o meu corpo se entrega ao seu para dele fazer o que quer, raspando, cosendo, descosendo, esfarrapando, cerzindo, retalhando.

É sua figura que vejo atravessar a porta. Sem olhar para trás, sem vacilar, impassível, ameno. É seu corpo que enxergo, ferido, aberto, explícito. Ele não voltará, diz que se cansa, que eu sou inteira demasia, feita apenas do excesso. Digo que sim, que vá, que não posso mais esperar, que o amo como se fosse um membro meu adormecido; inseparável, mas que já não sinto mais. Ele projeta seu corpo para fora e calça os sapatos que o esperam, perdidos, para sempre extraviados, logo na imensidão da calçada que separava nosso convívio de todos os outros trajetos de mundo.
Photo uploaded at 4:44 PM

Guestbook Comments (6)

"o contato fosse convívio exato entre a quebra e o apego" acho que teus últimos textos são desdobramentos desse trecho, são, essencialmente, sobre isso. e o último parágrafo tá lindo, perfeito!

mas realmente me vejo escrevendo cada palavra do cartola, facilmente.

como tudo isso soa sereno, amor e facas.

Eu te li, e fiquei obrigada a escrever... foi a gota d'água... :)
(http://cataventoslunares.blogspot.com/2008/10/depois-da-chuva-quente-nova-de-outubro.html)

Tuas invenções sobre o(s) corpo(s) que vês são fantásticos.
Minha admiração às palavras. Ventas como um sopro quente e contaminado.

esse último parágrafo foi de me arrancar um suspiro aqui no peito dona moça. você parece sempre escrever certas coisas com determinados momentos que eu estou vivendo aqui e eu adoro quando isso acontece nos escritos das pessoas que eu gosto tanto de ler, reler...

você merece mais que um fotolog.com, pronto, falei. :)

muito bonito. sempre leio teus escritos, leio e releio. alguns são bonitos, outros superam. esse é muito bom, mas alguns me tocam mais. ainda não tinha tido a necessidade de dizer

"leio-te!", mas essa necessidade veio agora, aí criei um fotolog só para te dizer isso - isso que pode parecer bobo ou sem sentido. deves ser linda, como pessoa. tua pessoa deve ser linda, pelo o que escreves. deve sim.

poxa, sr./sra. urgência, fico muito feliz lendo seu comentário. gostaria de respondê-lo em algum lugar, mas como não há, respondo aqui mesmo. tenho postado pouco, por 'medo' das coisas se perderem, pessoas copiarem como vinham copiando, etc. mas obrigada, a relação com pessoas que apenas lêem, e que leio e com quem apenas troco palavras-sensações é que me faz ainda ter vontade de escrever aqui.
um beijo

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