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O Livro dos Afiguraves: Franklin Jorge




On October 15 2015 at Natal, Rio Grande do Norte, Brazil 832 Views



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Potyguara On 15/10/2015

POR QUE ESCREVO?*
Por Franklin Jorge
Reiteradamente, perguntam-me e têm-me perguntado sempre - “por que escrevo” –, ou “como descobri que...” Essa curiosidade, presente em quase todos os que cultivam o prazer da leitura e, em todos aqueles que, em algum dia próximo ou distante pretendem escrever ou já escreveram “umas coisinhas só para si”, como tenho registrado em encontros e conversas fortuitas ou programadas, cada vez mais raras, agora que nos tiraniza essa parafernália tecnológica e o contato entre humanos tornou-se uma conquista e uma raridade.


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Potyguara On 15/10/2015

Por que escrevo?
Há muita metafísica nessa indagação que instiga a curiosidade, sem a qual, segundo a lição de Pound, não há criação. Nem arte. Não há, em resumo, a ação do criador sobre a matéria informe traduzida pelo entendimento.
Mesmo depois de tantos anos no exercício desse ofício de escrever, surpreende-me essa indagação que me atinge, a cada vez, como um disparo à queima-roupa e tem o condão de suscitar tantas respostas que variam conforme o temperamento, o processo de aprendizado e afirmação intelectual de cada um que persiste em escrever, como projeto de vida, negócio, ou criação de uma obra capaz de perdurar.
Por que escrevo?


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Potyguara On 15/10/2015

Não tenho ignorado essa provocação, uma questão recorrente com a qual tenho me deparado no curso da existência. Uma questão, enfim, sobre a qual tenho pensado. Uma questão que se faz presente, em algum momento, na vida de todos, em diferentes épocas: Villaça e Baudelaire, dois escritores que foram referências para mim. Essa pergunta suscita essa coisa misteriosa que vem de muito longe, talvez das brumas mitológicas da infância e, para mim, constitui uma expressão de humanidade, pois escrever pressupõe uma cultura, além de um bom suprimento de paciência em busca da expressão exata para que a forma seja eficaz. Todo um processo de realização silencioso e invisível aos olhos do público, do qual deve resultar o artefato estético com a sua transcendência e contundente realidade.


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Potyguara On 15/10/2015

[...] Na verdade, quase todo escritor que pensa sobre o que o impulsiona a dispor das palavras, tem a sua própria resposta para essa pergunta, sempre feita à queima-roupa. Quanto a mim, creio que sempre soube, desde o princípio de tudo, a razão porque escrevo. Mesmo assim, sempre me tem inquietado esse questionamento que em alguns momentos tem me levado a duvidar, sim, de minha habilidade; de minha destreza com as palavras.


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Potyguara On 15/10/2015

Por que escrevo? Escrevo para dar vida aos mortos e voz a quem não tem voz. Escrevo porque ao fazê-lo justifico a minha própria existência, e colaboro para a criação de uma obra que me justifique no futuro. Ora, escrever dá sentido à duração humana. Ato, portanto, algo metafísico. Escrevo para dar aos mortos uma segunda vida; uma vida mais duradoura, através da escrita, que é a minha pátria. Escrevo porque a imortalidade, segundo a descoberta ou invenção de Proust, é possível, sim, mas somente através da criação de uma obra. Sei, porém, por experiencia própria, que a obra que dá o Norte e justifica a nossa existência. Razão por que tantos criam ou intentam criar, na suposição de perdurar e persistir pela arte da escrita.


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Potyguara On 15/10/2015

Do desafio intelectual que emana dessa curiosidade sobre a origem da escrita ou do ato de escrever, como expressão estética que resulta em materialidade e imanência, há muito o que pensar e dizer. Há nessa pergunta, pois, muito de metafísica.
[...] Escrevo, pois, para honrar os mortos. Para tecer-lhes essa coroa de Palavras. Escrevo, sobretudo, em minha própria satisfação, por uma necessidade íntima atroz, no afã de dar voz àqueles que não têm voz. Em síntese, creio que é por isso que escrevo – em plenitude, cônscio do que crio -, e muitos de nós escrevemos, seja dito aqui: para dar vida aos mortos e voz àqueles que não têm voz.
Portanto, àqueles que me perguntam, e a mim mesmo, diria que escrevo para deter o Tempo; matando, assim, a Morte.
*Texto lido no Sarau da SPVA/RN, em 1º de Outubro de 2015, na Livraria Nobel.





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