10/19/09
Os anarquistas também não rejeitam a propriedade, se bem que tenham sobre o assunto ideias
muito próprias. Num sentido, a propriedade é roubo, o que quer dizer que a apropriação exclusiva
do que quer que seja por quem quer que seja é uma espoliação para todos os outros. Isso não
quer dizer que sejamos todos comunistas; isto é, o direito duma pessoa sobre um objecto não
repousa no facto de o ter fabricado, encontrado, comprado, recebido, de o utilizar ou de o desejar,
ou de ter um direito legal sobre a coisa, mas no facto de ter necessidade dela mais ainda, de ter
mais necessidade dela do que qualquer outra pessoa. Não é uma questão de justiça abstracta ou
de lei natural, mas de solidariedade humana e de bom senso. Se eu tiver um pedaço de pão e se tu
tiveres fome, ele é teu, não meu. Se eu tiver um casaco e se tu tiveres frio, ele pertence-te. Se eu
tiver uma casa e se tu não tiveres, tens o direito de utilizar pelo menos um dos meus quartos. Mas,
noutro sentido, a propriedade é a liberdade, quer dizer, o gozo de bens em quantidade suficiente é
uma condição essencial para uma vida agradável para o indivíduo.
Os anarquistas são pela propriedade privada do que não pode ser utilizado para explorar outrem,
esses objectos pessoais que acumulamos desde a infância e que fazem parte da nossa vida. Mas
somos contra a propriedade pública, que não é útil em si mesma e só pode servir para explorar
propriedade fundiária e imobiliária, instrumentos de produção e de distribuição, matérias primas e
artigos manufacturados. O princípio, afinal de contas, é que um homem pode ter um direito sobre
o que produz pelo próprio trabalho, mas não sobre o que obtém pelo trabalho dos outros; tem um
direito sobre aquilo de que tem necessidade e que utiliza, mas não sobre aquilo de que não tem
necessidade e que não pode utilizar.