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"Não entender, não entender, até virar menino"

Do falar, conversar e caminhar com as nuvens
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Do falar, conversar e caminhar com as nuvens

9/28/09
Falar com as nuvens é sempre forma de furtar-se ao tempo, pois elas, ao desconhecê-lo, passam um pouco desse desconhecimento aos homens, que medem sua experiência terrena pelas horas, minutos e segundos. O desconhecimento do tempo pode ser assustador ao observador incauto – de repente, percebe-se que não se está percebendo, numa súbita volta à superfície temporal.

As nuvens, alguém diria, perderam sua misticidade depois que os homens as atravessam milhares e milhares de vezes ao dia com aeronaves, jatos, helicópteros, paraquedistas e até surfistas aéreos. A discordância de tal avaliação parece igualmente adequada – o contato físico não elimina o enigma, por vezes, até o aumenta – ninguém dirá que um grão de areia não esconde a mais preciosa das histórias.

O que há detrás das nuvens, sempre foi motivo de brigas de pedras, facas, revólveres e canhões. Se Deus lá habita, convive com seres imaginados por mentes criativas; muitas vezes igualmente, ou mais, importantes. A morada do céu quantas vezes não foi mais disputada que as glebas terrenas: o reconhecimento de que os frutos mais saborosos não são passíveis nem ao paladar humano mais apurado – há de ser temperado pelas especiarias divinas.

A nuvem sempre foi marca do que há por vir, pois traz o lastro do passado unido à gestação do futuro. Prenhes de água, desejosas pela fertilização do mundo, carregam em si a essência seminal de Netuno, a qual proverá a terra com a capacidade de gerar: vírus, bactéria, alga, girino, réptil – a taxonomia da vida pode ser mensurada pela medida hídrica da evolução.

Perdão seja dado ao possível desvio etimológico, mas como a intenção não raro sobrepõe o fato, nubentes bem poderiam significar “aqueles que estão nas nuvens”, ou, mais poético quem sabe, “aqueles que se encontraram nas nuvens” – um pouco de elevação em direção às nuvens ao matrimônio mal não faria, em época tão farta em divórcios e redivórcios.

Nas nuvens, a água da chuva traz a redenção. A lavagem necessária para que o novo floresça, sulcar os terrenos com força para que se despreguem os desejos mais animalescos. O redentor líquido é o prelúdio do recomeço, da água a vida se libertou, em forma anfíbia - do líquido uterino tudo surge. Matriz regeneradora, purgadora de homens e pecados, as águas derramam as fúrias divinas e lavam as iniquidades.

O dilúvio é o auge da purgação aquática. Despejada pelas nuvens raivosas e acizentadas, a água varre o mundo com violência. Água para lavar a honra humana não pode ser nem sequer imaginada – o afogamento não é improvável. Noé que se salve; e a nós, exemplares únicos de nós mesmos, para que não se percam os genomas ímpares de cada nariz torto, perna coxa ou unha encravada.

Assim, caminhar através das nuvens é a experiência de existir no nada. Caminhar através das nuvens é a primazia absoluta do espaço, o passar das nuvens é o tempo etéreo, o tempo da eterna existência, a afirmação do que existiu e do que ainda existirá. Pode-se chegar até o antanho, num simples esbarrão em doces lufadas brancas, que chegam ao rosto como sólidas fossem, que a face desanuvia sem esforço.

As nuvens desmancham-se calmamente, numa despedida premeditada da existência, a qual dá espaço para novos animais, flores, deuses, máscaras – tudo se forma com a matéria sublime do colorido branco, a pintar sem pressa a moldura celestial. De modo infantil, tornam-se as nuvens delgadas ou grossas, rabiscam-se numa infinita gradação de branco e azul.

Diz-se que às nuvens cabe regular a tonalidade do claro e escuro, do visível e do invisível. Se aos deuses foi reservado criar o dia e a noite, separando os céus e a terra, às nuvens ficou a incumbência de encobrir e descobrir o sol, como quem o faz com a própria verdade. As nuvens jamais empurram o dia para frente; mas, sim, transformam o modo de sua passagem - por vezes chega a enxertar noite alumiada em pleno passar diurno.

A Lua tampouco escapa dos efeitos vaporosos dos noturnos corpos d´água. Poderosa, pode-se dizer, é essa ação sobre a lua, que sofre eclipses periódicos; assim mudando as trilhas das caminhadas à noite e ascendendo os instintos lupinos dos loucos do sanatório, que uivam sedentos, lunáticos, sequiosos pela fuga e pela deformidade do normal.

As nuvens são o que permanecerá. Na ausência dos homens, após crescentes subidas de temperatura, ondas de calor e de gelo, das nuvens virão novamente os desejos de vida, a ânsia pelo ser e a razão absoluta da existência.

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