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"Não entender, não entender, até virar menino"

Do lirismo pétreo
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Do lirismo pétreo

6/28/09
Tenho estado muito lírico ultimamente.

Deixo-vos, leitores inexistentes, nessa empoeirada estante virtual, amostras poéticas, para que não leia e, assim, não me torne rubro com olhos e atenção.

Lá vai...

1. Sobremim

Sou pedro de pedra lascada e polida
pedro de pedra fundida
pedro de pedra cinza

Pedro de pedra que deriva diretamente do meu avô
(esse tem pedra até no interior)
pedro de quem roubei alcunha, nome e sobrenome
Pedro de pedra Valle

Vem-me também o velho pedro pedra de barba branca
pedro de pedra santa
Sinto em minhas pedras de pedro cinza, toda a tradição e liturgia sacrossanta

Mas, a Deus, sou apenas pedra de pedro cinza, sujeito ao tempo e ao tempo, que esculpe, à vontade e lento, em meus pedros de pedra cinza tudo aquilo que é vida.

Além do firmamento


2. De quando minha mãe ficou surda

Aos poucos o mundo se lhe afasta
Os ônibus passam ao longe e os urros
das crianças já lhe parecem pequenos
tilintares de porcelana

Os sons, simbióticos, siameses,
chegam-lhe melados aos ouvidos.
Água os carrega - mescla os fonemas
e limita-lhe os sentidos

Os sons, disformes, são entendidos
conforme seu humor: não, pão, cão,
tão, balão, pilão, estão, chão, pisão,
bisão.

Cabe-nos re-explicar-lhe os sentidos,
com a calma desprovida pela rotina.
Cabe-nos isolar-lhe em seu mundo
de sons aquáticos, à companhia
das suas mais plangentes cantorias.


3.

Do Pátio Brasil,
Atiram-se corpos ainda infantis
Vestidos e revestidos de negro,
de dentro e de fora.

Não tem sexo.
Não tem cor.
Não tem vontade de ser, nem de não ser, e
a própria existência os incomoda.

Só o grupo os protege.
Só as canções os afagam.
Só a rua os acolhe.

4. Dedico-a a Audrey Hepburn

Escorro minhas mãos,
cujas veias,
nodosas,
envolvem sangue grosso,
acelerado,
com volúpia e apetite

Por todo seu corpo,
retorcido,
experimentado na leveza dolorida
de sentir as costelas
re-entrarem no corpo, numa
espécie de descriação,
divina,
pelo prazer.


Pronto.. quatro está bom - uma para as salamandras, outra para sílfides, a terceira para ondina e a última para os gnomos: encarnações dos elementos.

"A chuva são flores líquidas, que, ao fecundar a terra, revela sua verdadeira forma."

Beijos e Abraços,
É muito bom saber-se capaz de sentir isso que sinto agora, mesmo sabendo que não chegou a hora.

Ah, a foto é de João Pessoa.

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