Avatar only_if

\tFizeram-me perceber que a minha vida, não ia passar mais por aquela casa. É mesmo muito duro ter que abandonar as origens e partir em busca da fortuna, ainda por escrever e descrever. Tive que tentar aceitar o facto de ao longo da minha vida ter de deixar ficar para trás o meu tesouro, para vir a adquirir quiçá outro tesouro – podendo ser mais ou menos valioso que o antigo, mas com a certeza que iria ser diferente. Decidi então, subir na direcção do meu quarto. Abri a porta, entrei e tranquei-a com a minha chave predilecta – que tantas vezes fechou o meu contacto com o mundo. Comecei a caminhar, como que automaticamente, em redor do meu quarto. Durante este meu percurso, fui passando os dedos pelos móveis, pelos quadros, pelos perfumes, pelas fotografias, pela aparelhagem, pelos candeeiros, pelos meus livros e discos. A minha vontade era que as minhas impressões digitais ficassem ali cravadas, nas minhas coisas para que fossem sempre minhas e de mais ninguém. Para que fosse só eu a sentir-lhes a essência, a minha tão característica essência. Deixei a raiva inundar-me a cara e os soluços, que se tornavam o meu compasso de tempo. Saí do meu quarto e provoquei uma visita guiada a mim mesma, pela minha casa. Como se tivesse sido a primeira vez que nela, os meus olhos pousaram. Tentei senti-la desconhecida e distante. Tentei e não consegui. Era mais que uma casa. Nas paredes, estava escrito a minha história desde os meus quatro anos. Quanto mais visitava todos os seus cantos e recantos, mais inesquecível e memorável se tornava no meu coração. Delimitei, com os olhos ensopados, as linhas que limitavam o sentido do lugar de cada sombra. Tinha perdido os meus quatros sentidos, menos um: a visão. A visão foi a minha linguagem. Só a retina, a íris, a pálpebra, as pestanas, a pupila, conseguiam transmitir a alma morta que ocupava o meu corpo.
\tO instrumento que mais controla a nossa vida – o relógio – fez questão de chegar ao fim da contagem decrescente. A hora chegou, menos desejada que nunca. Tive que me deixar arrastar pela vontade (?) nula de recomeçar as palavras numa página em branco. Numa outra página, sem determinação, sem esperança, sem vida. Quis ser eu a fechar a porta de minha casa. Fechei-a, sem pensar duas vezes. Mil e uma imagens decidiram cegar-me os olhos. Não vi mais nada, senão elas. (Não dei importância e continuei. Sentia que era só o passado a marcar presença.) Instantes mais tarde, virei costas, entrei no carro e segui viagem. Dentro daquela casa, continuam encurralados os meus seis anos de vida. O meu nome, está gravado em todas as divisões dos meus quatro andares. Cada vez que abro aquela porta, abre-se a porta da saudade de outrora. E cada vez que fecho a porta, fecho a mágoa do meu passado.


Quem se atreve a ler?





On February 24 2008 3 Views



Avatar vidas_inacabadas

Vidas_inacabadas On 25/02/2008

eu atrevi-me... e não me arrependi! a nossa casa é nos sempre muitos, é lá que guardamos tudo de nós. As paredes são as maiores confidentes e as janelas o olhar para o resto do mundo. Ficam os objectos, levam-se as recordações. A nossa casa nem sempre é o sitio onde vivemos, porque casas temos mais que imaginamos. Um beijinho*


Avatar whiiite

Whiiite On 25/02/2008

Tá lindo o texto $


Avatar shauinha

Shauinha On 25/02/2008

k kerida *.*


Avatar maggie_devoto

Maggie_devoto On 24/02/2008

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Avatar cate_mezi

Cate_mezi On 24/02/2008

'Cada vez que abro aquela porta, abre-se a porta da saudade de outrora. E cada vez que fecho a porta, fecho a mágoa do meu passado. '

melhor ? impossível.


Avatar _time_goes_by_

_time_goes_by_ On 24/02/2008

li tudo .
reconheço aí grande parte da minha dor quando mudei de casa há quase dez anos atrás #: ter de deixar as minhas paredes , as minhas coisas ..
este ano quase saí desta casa também , mas por outras razões menos felizes #: para o ano , por obrigações que terei de cumprir , aí vou eu sair daqui , deste conforto do lar .. $:

força e que guardes sempre contigo tudo o que há para ser recordado (: *


Avatar carininhasilva

Carininhasilva On 24/02/2008

não só relativamente a um lugar como a uma pessoa*


Avatar carininhasilva

Carininhasilva On 24/02/2008

Sem qualquer margem de duvida, o teu melhor texto.
Não vou fazer algum comentario mais profundo,porque é demasiado pessoal, demasiado puro de tal que nao me permite entrar dessa maneira (:
Digo-te apenas que senti isso, não só relativamente como relativamente a uma pessoa e sublinho a parte final..
«Cada vez que abro aquela porta, abre-se a porta da saudade de outrora. E cada vez que fecho a porta, fecho a mágoa do meu passado. »
(não diria melhor :) )
beijinho camila *


Avatar anotherfeeling

Anotherfeeling On 24/02/2008

olho castanho lindo : $

" Quanto mais visitava todos os seus cantos e recantos, mais inesquecível e memorável se tornava no meu coração. Delimitei, com os olhos ensopados, as linhas que limitavam o sentido do lugar de cada sombra. "
adorei esta parte. lindo, lindo.


Avatar naoqueroser

Naoqueroser On 24/02/2008

:'O
Está tao... (...)
Estou a passar pelo mesmo , ter q deixar os meus 8 anos numa casa... Doi tanto! Quando for a altura de fechar definitvamente a porte é que... :'
Amei a foto

Beijinho .


Avatar a__nidia

A__nidia On 24/02/2008

oh meu deus , venero o texto , li até ao fim e amei mesmo :o

Beijinho querida *


Avatar xokolatada

Xokolatada On 24/02/2008

«Delimitei, com os olhos ensopados, as linhas que limitavam o sentido do lugar de cada sombra. Tinha perdido os meus quatros sentidos, menos um: a visão. A visão foi a minha linguagem. Só a retina, a íris, a pálpebra, as pestanas, a pupila, conseguiam transmitir a alma morta que ocupava o meu corpo.

Para mim, disseste tudo aqi, nesta parte [:


Avatar me_too_7

Me_too_7 On 24/02/2008

Muito bom!_:)
É sinal de vida!

beijinhO*


Avatar rascunhoos

Rascunhoos On 24/02/2008

O melhor texto, sem dúvida.

Beijinho Camila *


Avatar kissingmydreams

Kissingmydreams On 24/02/2008

Eu atrevi-me a ler.
E invejo-te.
Porque tu tens que te sentir privilegiada por teres tido a oportunidade de sentir cada pedacinho da tua casa, nao só do teu quarto, mas como de todos os corredores que passaste durante o teu crescimento. Eu nao tive tempo para nada disso, nem para me despedir dos meus cães, que tanto amava. Não mudei de cidade, mudei de país e já se passaram 6 anos. Até hoje atormenta-me o facto de nao me terem dado tempo de me despedir de tudo aquilo que ia ficar para trás.
Este será o 7º ano de ausência daquele lugar, e ja nem sei se sinto saudades.
Como tu disseste, a hora chega sempre. É dificil, mas mudamos para procurarmos destinos melhores. Se as circusntancias nos obrigam a isso, nao é por nada. Existem motivos fortes.

Cada vez que abro aquela porta, abre-se a porta da saudade de outrora. E cada vez que fecho a porta, fecho a mágoa do meu passado.

Tambem o sinto todos os dias.


Desejo-te sorte, e muita muita felicidade :)


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