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AVO AIRES

Meados de Outubro de 1917... Ano e respectivo mês de várias aparições e revoluções...

Entretanto e inocentemente, um miudo traquina de doze anos, quando andava pelos telhados da casa do Sr. Joaquim Carvalho, em Paços de Brandão, pára de repente, quando ouve de uma janela trechos de um violino a tocar... "Nabucco" de Verdi.

Costumavas dizer que «aquela música ficou-me na alma de tal forma que dei por mim a chorar». Acendeu-se uma centelha, que durou toda a tua vida... e que vida avô!!

As palavras que disseste a seguir foram para o teu irmão: «Como eu gostava de saber tocar assim, como o sr. Joaquim».

O teu sonho torna-se realidade pouco tempo depois. Aprendeste rápido. A música estava no teu sangue... literalmente. Teu irmão António era um grande violoncelista. Teu pai - meu bisavô - também tocava; tua mãe - a famosa "mãe Guida" fundou o grupo "Como Elas Cantam e Dançam em Paços de Brandão".

Tu acreditavas «que os dedos são criados do violino».

À medida que os anos foram avançando, procuras-te conciliar a tua vida familiar com a eterna paixão pelas cordas. Não eram tempos facéis. Eram tempos em que o estômago era leve como uma pena.

Pelo caminho o amor criou raízes. Conheceste a mulher da tua vida enquanto brincavas com um amigo. É assim que acontece, o amor apanha-nos nos momentos mias inesperados, tornando dessa forma o sentimento mais maravilhoso. Dessa maravilhosa união nasceram doze filhos. Costumavas garantir às pessoas mais próximas que não fosse o falecimento da tua amada mulher, há trinta anos atrás, e ainda hoje estariam juntos... mas foste corajoso e heróico, tiveste aquilo a que Hemingway chamava "grace under pressure", a capacidade de manter uma certa graça na adversidade e na tragédia. Sobreviveste.

Foste professor de imensos alunos. Perdias a conta aos alunos que ensinaste.

Foste um autodidacta, e dessa forma, além do violino, aprendeste com a mestria que te caracterizava, a tocar o violão, contrabaixo, viola braguesa, guitarra clássica, cavaquinho e bandolim.

Mas o que eu gostava mais de te ouvir tocar era o violino. Só podia ser dessa forma, porque nós percebemos claramente - como se fosse água cristalina - quando alguém se entrega a alguma coisa de forma apaixonada. E tu tocavas de olhos fechados. Tocavas arrebatadoramente. Apaixonadamente.

Nos tempos livres que te restavam, além de dares as tuas aulas - que prazer imenso quando te observava a ensinar - gostavas de dar os teus passeios, a pé ou de carro, com a minha mãe - tua grande amiga - ou com os inúmeros amigos que te prezavam.

Na tua terra de sempre - Paços de Brandão - começaram a festejar o teu aniversário quando tinhas noventas e poucos. Mas tu respondias sempre com a ironia fina mas fraterna que te caracterizava... foste sempre avisando que ainda tinham muito que celebrar. Até aos 102 anos quando resolveste partir.

No dia do teu "último" aniversário - 06/01/07 - e quando eu já sabia que seria o último, ainda tiveste força para tocar o teu amado violino. Poucos dias depois, perto do final do mês de Janeiro, falecias. Foi durante a madrugada, rodeado de amigos e familiares. Os anjos enlevadamente levavam-te para empreenderes a tua musica. Agora celestial.

A tua forma despretenciosa, justa e cheia de coragem de como encaraste a tua vida; a forma como passaste esses anos todos ricos de vida. Ricos de sentimentos. De amizades, risos e lágrimas. Cheios de amor e alegria, mas também de tristezas, imensas tristezas, porque só foste o que és porque sofreste. O que não nos derruba só nos torna mais fortes. Essa tua forma de viver, o teu exemplo é para mim uma inspiração, uma mais valia para minha vida. Não imaginarás, porventura, o privilégio e a felicidade que tenho por ter vivido contigo, convivido contigo, por ser teu neto, sangue do teu sangue.

Tu costumavas-me dizer com um sorriso rasgado e sentido: «Nunca te esqueças... a vontade e o sentimento fazem milagres!».

E tinhas razão avô.

Nasceste a 06 de Janeiro de 1905, Dia dos Reis.







On January 15 2008 24 Views




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