Pega um, pega geral...
10/23/07
Que há policiais corruptos, todo mundo já sabia. Que alguns ainda resistem e tentam fazer bem o seu trabalho, isso também não é novidade. Que a situação nas favelas do Rio de Janeiro não é nada pacífica, que o tráfico reina, que a polícia não o controla e etc, não há um brasileiro em sã consciência que já não conheça toda essa realidade. Mas afinal, por que um filme que trata de temas “batidos” se torna tão comentado?
O enredo gira em torno de Capitão Nascimento, personagem vivido por Wagner Moura – com uma atuação digna de botar o Olavo no esquecimento eterno – e de sua louca vontade de dar o fora do Batalhão de Operações Policiais Especiais, a tropa de elite do Rio. Por que alguém iria querer sair da elite? Simples assim: seu filho vai nascer e ele quer estar vivo para ver isso!
O problema é arranjar alguém digno de ocupar seu lugar no Batalhão. Com tanta corrupção envolvendo policiais, não é qualquer um que vai ser capaz de pertencer à elite, aliás, quase nenhum vai conseguir tal feito. No filme, o Capitão não só assume o papel principal como também fica responsável pelas narrações, que chegam a ser poéticas, mesmo em meio a palavrões. Isso acaba dando um toque intimista à estória apresentada.
O passo seguinte do filme é apresentar os outros dois personagens que faltavam: Neto e Matias. Amigos de infância, ambos são vistos pelo Capitão como possíveis substitutos do seu cargo. Qual deles escolher? Qual será o mais capacitado a enfrentar a guerra diária de pertencer à tropa de elite?
Em meio a isso, acompanhamos a rotina de jovens viciados, que no filme ocupam o lugar de mantedores do tráfico, os culpados pela situação estar tão caótica assim. Se há tráfico, é porque há uma demanda, e é essa juventude viciada que faz a roda girar e o ciclo ser contínuo.
Há cenas de tortura que deixam os espectadores de boca aberta, ou olhos fechados, ou os fazem soltar gargalhadas tenebrosas de aprovação. Estranho pensar que chegamos ao ponto de desejar que alguém seja torturado, mesmo que tudo não passe de ficção. Mais que isso, num determinado momento não se sabe mais para quem torcer, talvez porque no fundo todos saibam que nessa guerra urbana, como em todas as outras, é impossível haver um vencedor.
O filme termina como começa. Rodeado de violência, com um sentimento ilusório de que a justiça foi feita. Afinal, o que seria justo: Matar para não morrer? Matar para que outros não morram? Morrer na tentativa de fazer o melhor? E o que é o melhor?
Nessa luta entre mocinhos e bandidos, a linha tênue entre uns e outros é ultrapassada. No fim, já não se sabe mais o que é certo, o que é errado. Matar traficantes, matar policiais, fazer o que deve ser feito em nome de sua profissão, em nome da vida que você escolher viver...
Você junta tudo isso, mesmo parecendo que vai ser mais apenas um filme sobre tráfico, drogas, policiais e bandidos, e acaba percebendo que nem tudo é o que parece ser. E conta com a sorte – mesmo que tenha seu lado de azar – de ser o DVD mais pirateado no País, e depois ainda entra na lista dos mais assistidos nos cinemas brasileiros, ocupando o 1º lugar. Pegou um, pegou geral e, com certeza, vai pegar você!
** Espero voltar a atualizar frequentemente o flog, ok? Beijos a todos
Um dos melhores do ano!