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O que poderia mudar? Nada.

São quase nove da noite, e só agora se decide a tomar um banho. O corpo sujo de há dois dias já lhe dá comichão. Enquanto passa o chuveiro pelo rosto, e ao mesmo tempo que se regala com a pressão da água que lhe bate contra a pele, lembra-se da canção que lhe tem derreado a cabeça ao longo do dia. Às vezes a memória atraiçoa-a, mas bem dita a hora em que de novo fez as pazes com ela, já que estes banhos são uma espécie de culto transcendental, em que medita sobre os estados que a têm ocupado desde que se sabe gente. Entre dentes, num retraído “nan, nan, nan”, canta “Babe I’m Gonna Live You”. O embalo da canção transporta-a para um outro espaço-tempo, anos antes, em que um banho que agora lhe limpa apenas o corpo suado, limpou-lhe em tempos a alma. A armagura desse estado ainda tem chagas, que ela, ainda hoje, vai lambendo.

[Estava sobre a cama, enroscada em si mesma, balançando-se para a frente e para trás. Despida e de olhos esgazeados, ensopada em lágrimas, em sofrimento. Transtornada e desnorteada, procurava, em desespero, pelo seu raciocino lógico, substituído por uma demência súbita, tentando alcançar na sua mente atafulhada O ou Os porquês. O que tinha feito? Dito? O que poderia mudar? E sufocada por dentro, amordaçada por uma amargura e vazio atordoantes, nada disse e conformou-se. De cabelos desgrenhados e encrespados, com umas olheiras que se cavavam na sua pele, envolta num lençol ainda quente e perfumado, perplexa e nebulosa, desmedida de dor e inconsciente de razão, ouviu o, sem ainda compreender, “é melhor assim”, vendo-o afastar-se na penumbra. Por mais “infinita” e “eterna” que pudesse ter sido, transformara-se apenas num corpo, num trapo de pele que tapava uma alma vazia. Poder-se-á dizer que hoje vive entre sombras, continuando sem saber o motivo da sua ausência.

Sinto a sua longe presença, a vaguear e a murmurar em cada canto da casa. Mas acabo por denotar que essa presença é o meu corpo, que se move contraído de emoções, perdido de si mesmo, de mim. O mundo é um lugar vago e escuro para nele se viver, especialmente para pessoas (ou almas penosas) como eu, em que a morte é apenas uma passagem de nós, um alívio quiçá, e o cadáver, apenas um fato único deixado para trás.]


Há dias que, enquanto tomava um banho, senti-me com 17 anos, outra vez. Senti por momentos a dor do primeiro amor, do que é culpares-te pelo fim, por não saberes o motivo da ausência de quem amavas te ter deixado. Tive de me auto-tranquilizar, dizendo para mim mesma que já passaram três anos, que aquela menina é hoje outra.
Isto não é propriamente um desabafo, é um não sei, como tantos outros que digo. É aqui que realmente sou eu; em papel, em palavras escritas, longe da minha dialéctica disléxica. Quis que lesses dois pequenos textos que escrevi naquela altura. Foi difícil, foi ter que passar por uma superação pessoal, por uma recomposição, e é difícil começar do zero. Sem um namorado que te deu a compreender o amor, sem uma amizade profunda, cúmplice e íntima, de partilha de sonhos e medos, e sem um professor também, porque no fundo acabava por ser, já que parte dos valores morais que aprendi foi também com ele. A vida, na primazia do seu sentido, começou, para mim, ali. Sem razão aparente tudo isso desvaneceu, e eu sou como dizes, congelo no passado, e três anos congelei. Mas só até vires tu. Eu lambo estas feridas, mas tu és a saliva que as cura.

Aos 17 não achava possível voltar a ceder aquele amor outra vez, não acreditava, nem podia. Hoje não só posso e quero dá-lo, como ele foi de certa forma reinventado. Não penses que sinto aquela paixão obsessiva, que te crava umas palas na vista, qual burro que só anda para a frente por mais que lhe dêem com uma cana no lombo. Hoje, quando sinto que me apertam os calos, quando tu apertas, dou coices. Faço ouvir a minha voz. Gosto de ti, mas gosto mais de mim. E foi isso que me faltou naquele tempo. Mas ainda bem! Para se ser feliz, é preciso primeiro ser-se infeliz. O primeiro amor marca-nos para o resto dos nossos dias, sejam estes decadentes ou espectacularmente excitantes, mas este amor que se constrói sob um coração ferido, é o que nos vai acompanhar nesses mesmos dias. É um amor maduro, de parte a parte.

Eu não me atiro da ponte se tu te atirares, nem vice-versa. Esse desvario desmesurado já não faz parte da minha condição de ser. Mas se quiseres, comigo, apreciar a vista que se vê da ponte, descobrirás a maior das loucuras: é que não são precisas provas de amor tresloucadas, porque é real que estou ao teu lado, e há algo melhor que isso? Quero partilhar este amor, entregar esta paixão e usar, desta vez, a cabeça, para criar bases num relacionamento que seja duradouro, contigo. Acima de tudo és o meu mais fiel amigo, e só por acaso tornaste-te o amor da minha vida.






On December 30 2011 2273 Views




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