Passionária
11/7/09
Essa tarde
de súbito
na chuva
curvei-me sobre mim
sobre
o que chamava amor e eis que era
sua falta
e por isso mesmo ainda mais
amor
esta tarde
como parti
parti-me
em vossas inclemências
namoradas
vossos lábios compassivos
ou
predadores
vossos seios vossas coxas vossos ventres
vossas almas como brisa
fonte
sombra
ou sóis implacáveis
em meus ossos nus
esta tarde
uma vida te visitei
senhora do rio
era janeiro e bois sobre a colina
e de teus seios vinha a benção
qiue me purificou
e desde então
resplandeço
outra vida
foi contigo
no fim da rua
feita de areia e formigas
contigo
uma vida ao pôr-do-sol
as mãos se amando suavemente
mesmo quando crispadas
e tudo que eu tocava era suspiro
e beijei
(o que nunca fizera)
teus joelhos
como dois pequenos animais
desamparados
cegos
enquanto o sino anoitecia
o tempo sobre a praça
e ainda uma vida
contigo
que cruzaste a madrugada para
nunca mais
e depois todas as luas
foram falsas
esta tarde
na chuva
irromperam de mim troncos e galhos
densos de crianças
revoaram
sonhaços
sofrês
canários-da-terra
e um cão lambeu-me
o lado em que todos trazemos a ferida
da lança romana
esta tarde
na chuva
foi tanto assim
que o mar
veio morder as ruas
e um barco
ao longe
delirou
que era uma gaivota e fechou
as asas e
mergulhou
ah
esta tarde
na chuva
tantos anos
relampejaram
tanto
e só havia
e só
ao fim de tudo
como uma estrela amarga em minha boca
esta tarde
na chuva
curvei-me
sobre mim
e me matei.
(Ruy Espinheira Filho)
ao ver essa foto lindona, lembrei de um trecho de uma música da Tiê:
"Vem, te faço um carinho
Eu te toco mansinho
Te conto um segredo
Ou te encho de beijo"
:)