11/11/04
NATUREZA MORTA
Cadáveres em lágrimas,
nada mais é inverossímil em tua existência?
Três lances de escada antes da queda
rabiscavas de memória umas palavras finais.
Com quem falavas em teu caminho para o abismo?
Quais vozes feridas e estrangeiras
em teu drama rugiam, quase bêbadas, quase vozes?
Será tão imensa assim a eternidade que acaso não possamos nos encontrar em uma tarde de sábado?
Silêncio rochoso, enfurecido em seu casco carcomido,
que estranho vício a tudo converte em angústia?
Cadáveres prontos para uma ceia de dores,
soluçante cosmogonia debruçada no vazio, rios de insetos piolhos badejos mortos pulgas lesmas lentilhas podres latas de óleo – naufrágio queimante – ferrugem de faróis tumbas flutuantes – estupor diante do sangue das noites?
Há uma distância clássica entre o que pensas e o que és, trevas de atitude, batismo de cruzes, sofismas gastos, coro de anjos, sempre um mesmo porto de aventureiros,
lugar pouco provável para nosso encontro.
Ainda mais que não te revelas, entre cadáveres remando contra a morte,
restos de comida fratura de muletas górdio de fezes – de onde cai o tempo? – o verso se quebra a todo momento.
Onde estás? Onde moras?
Indago onde poderias ter nascido.
Habitualmente cercado de cadáveres,
tua noite será a grande indústria dos desvalidos?
Metáfora decaída, cantina de preços exorbitantes, estamos sempre a dois passos de algo, perdas acumuladas, rotina de miséria solúvel e pastel de ansiedades – será este teu mundo descomunal, tua bíblia que a tudo abrange mas que nada percebe em seu íntimo, o pandeiro da jovem esmeralda, mulheres tatuadas a estilete, garotos decepados por não portarem armas, um ovo de tartaruga por onde escapa um jacaré, a suprema glória da superficialidade, morte entre a pele e o abismo de sentidos, bandejas de bagos e uvas servidas em congressos de paz, artistas a vácuo, suplentes de alquimistas acidentados em trabalho, imbecis especulativos, baratas familiares, pêssego pitomba açaí tudo de ouro, morte eterna, será?
Em que oceano descomunal te escondes, poeta?
Disfarces: um amargor telúrico uma máscara dionisíaca um barroquismo ululante – ah formidável maneira de não estar no mundo.
Um demônio triste escreve um roteiro banal de arrependimentos.
Teus cadáveres já não te suportam.
[Floriano Martins]
VIXI.....
q vertigem ao ler o poema...
e essa foto?
ai ai
treeHUG