Acho que estou cansada da civilização. Estou cansada do trânsito, do barulho, da falta de respeito e educação. Estou cansada de sair de casa com duas horas de antecedência pra realizar um trajeto que demora 40min. O trânsito já não escolhe mais os horários de pico, persiste durante todo o dia, os ônibus demoram uma eternidade e essa combinação faz com que tudo seja mais demorado, mais cansativo.
Não sou fã da velocidade. Gosto mesmo é da vida pacata, devagar, em câmera lenta. O lance é que, estando no trânsito, não tem nada de divertido em demorar. Odeio barulho, tumulto e fumaça, e presa pelas ruas da cidade isso é tudo que tenho. É absurdo eu ter que sair 9h20 de casa para uma aula na freguesia as 10h, sabendo que em circunstâncias normais eu poderia sair as 9h40 e chegar lá com folga.
A velocidade cada vez maior da cidade me assusta. Me confunde. Fico cansada por antecipação quando penso no tempo do meu dia que vou gastar me locomovendo de um lugar ao outro. Eu não consigo me adaptar.
Quando vim morar nesse bairro, o que eu mais gostava era justamente o fato dele ser mais devagar do que o resto do Rio. Eu pegava todo dia os mesmos motoristas de ônibus, via as mesmas pessoas, ia ao mesmo mercadinho e a mesma padaria. Era aconchegante conhecer tudo ao redor, e de repente o bairro começou a crescer de maneira assustadora. O sistema de água e esgoto, de iluminação e de trânsito simplesmente não comportam tamanho crescimento. Semana passada passei 15 horas sem luz, e nem ao menos estava chovendo. Basta chover para que a rua abaixo da minha encha e eu não consiga chegar em casa, tudo graças ao gigantesco condomínio de prédios que nela foi construído. São coisas que podem parecer normais pra quem mora em outros lugares do Rio, mas pra mim isso é totalmente novo. Novo e desgastante.
Talvez eu esteja louca e ninguém repare o ponto em que as coisas estão chegando. Talvez eu tivesse uma visão romantizada e infantil de jacarepaguá, e só agora repare a realidade. Não sei. Só sei que eu preciso muito ir viver longe. Eu preciso de mato e flores e de uma vida devagar. Sou uma pessoa devagar, eu não nasci pra todo esse agito. Eu sou lerda em essência, preciso de um ambiente propício a minha criatividade. De um jeito de criar devagar, sem pressa, sem cobrança.
A cidade grande não propicia a arte. Ao menos não a minha.
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"Abra que eu quero ver
Esse céu azul
Abra que eu quero olhar
Esse mar do sul
Abra que eu quero voar
O mais alto que eu puder
Um dia eu vou sair
Vou morar no ar."
Vou morar no ar - Casa das máquinas
On September 27 2010
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