11/27/09
resgatar a si – pentax tissue water
No meio de um quarto há um suicídio cheirando a papel molhado e sorrindo para o meu ego. Em algum lugar é primavera e às vezes as pessoas são reais: imagino flores reais, embora não se possa imaginar flores reais porque de algum jeito elas não mais seriam. Então ela sorri com as mãos pequenas e tudo é mais fácil. Mentira. Duas mulheres divergem numa cama amarelada e, lamentando não poder desfrutar do ensejo, fiquei um tempo ali de pé. E olhava uma delas o mais distante e profundo possível para onde sua alma se curvasse no horizonte. Então me esqueci da outra, tão vasta quanto e talvez um pouco mais bela, porque era cheia de grama e queria ver gente – embora os que passaram por elas tivessem estragado as flores do jardim. As duas que a manhã deitou igualmente eram meu passado e o meu futuro em fotografias que nenhuma decisão poderá escurecer. Escuro era o quarto. Silencioso também. E eu sigo pela primeira por mais um dia. Mesmo sabendo como um dia leva a outro dia. Mas em algum lugar dos anos, uma centena: duas mulheres divergem numa cama amarelada e eu tomo aquela que exige menos sofrimento. E isso faz toda a diferença. Duvido que alguma dia ela esteja por lá novamente.
[marcos beccari]