Para uma Etnologia da Solidão. Exposição de Marcelo Reis

Texto para a exposição no Conjunto Cultural da Caixa do Rio de Janeiro em maio de 2006


Terra + sociedade+ nação + cultura + cidade = solidão. Esta é a equação do individuo que se reinscreve fugidiamente na cidade gigante. Na era da realidade complexa e fugidia não há ponto fixo somente se chega à parcialidade.

No mundo das megalópoles, os moldes de reagrupamentos amontoam humanos fazendo-os transitar ferozmente, circulando, tontos, zonzos.

A cidade é o lugar de fabricar e produzir angústia humana. A identidade partilhada, o relativo anonimato que diz respeito a cada identidade provisória. As cidades são espaços que não criam identidades singulares, mas sim solidão e similitude. São espaços onde reinam a atualidade e a urgência do momento.

Aqui o olhar caleidoscópico de Marcelo Reis mostra as concepções da dinâmica social, do império do concreto no século da pós-modernidade, do eterno fazer da era do de-vir. Denuncia a identidade dinâmica, as imagens contingenciais momentâneas e não cristalizadas.

Marcelo com o seu clicar se apropria dos novos paradigmas da desconstrução do humano para formular questões sobre a problemática de sobreviver, passar e resistir na grande cidade onde a solidão abstrata é concreta.

Há os que passam
Há os que fogem
Há os que matam
Há os que morrem


Os olhos modernos de Reis se prestam à observação etnológica onde o fotógrafo abre caminho para os vãos (ainda possíveis) da cidade, para os vãos de não existência, para o vazio que se projeta ao mundo das passagens, do efêmero e das identidades fluidas.

Assaltado pelas imagens difusas, Marcelo nos mostra os espaços de consumo da natureza humana. Lugares onde seres transitam e humanos tentam dar lógica à vida urbana. Reis, por antecipação, sugere a linha de fuga de um concreto horizonte urbano repleto de arranha-céus.

As fotos de Marcelo são ideogramas mais ou menos explícitos e codificados. São visões parciais, instantâneas, somadas confusamente como jogos de imagens, peças que não se encaixam. Através delas experimentamos juntar pedaços de nós mesmos, dos nossos outros, dos nossos esquecidos, perdidos, deixados... É o convite intimista para circularmos entre os grandes horizontes e no intimo da existência humana.

Os homens modernos, a vida moderna, estão indo mais rápidos, são mais velozes, porque sabem, cada vez menos para onde vão.

Ao denunciar a solidão desconcertante, Marcelo Reis nos evoca. Ele cria, através das imagens, itinerários de vazios infindos e horizontes possíveis em busca da nossa misteriosa e solitária, porém, ainda comovente alma humana.

Marinilda Lima
Antropóloga


On September 04 2006 Edit






marceloreis

male - 28/12
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Salvador, Bahia, Brazil



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