Último Romance
11/6/09
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O mundo parece cair em água morna enquanto o futuro chega. Pessoas se sentam enquanto riem sobre assuntos absurdos. Pensamentos, palavras e gestos fogem sem olhar pra trás do que nos foi ensinado por nossas mães. Bons modos ficam do portão pra fora e são logo transformados em peso, aguardando serem carregados quando chegasse o momento certo.
A cerveja é gelada com o gelo. Gelo que embala as bebidas quentes sobre a mesa, que se esgotam com a velocidade de um olhar, enquanto cigarros são acesos aos montes. De todos os tipos eles passam de mão em mão até serem consumidos em idéias e conversas. A cabeça funciona mais rápido que a boca enquanto vozes são ouvidas umas mais altas que as outras, como se fossem educadores em uma palestra. Claro: Quando um burro fala o outro abaixa as orelhas. Talvez o que mais se comunicava era aquele que não movia uma palavra.
Assim pareciam crianças. Felizes por viverem o dia delas. Cada olhar cruzado virava intenso desejo de anos atrás. Abraços modificavam em silhuetas dançantes iluminadas por luzes que não existiam.
E foi assim até o dia se escurecer, ofuscando o que há pouco era claro. Tão claro como o sentimento que se fez há anos e se transformou de dança em beijo consumido. Beijo esse carnal, afinal, o sentimento não poderia ali ser demonstrado. Era provável que muita coisa aconteceria. O beijo, o olhar. Era como se tudo já houvesse acontecido e decorado por todos os que embalavam o encontro, transformando a tentativa no fracasso, que pra outros virava vitória, vantagem, triunfo. Afinal pra que temos boca, senão para beijar?
Nelson Dantas
"...e até quem me vê lendo jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei..."
Rodrigo Amarante