Atualizar para construir.

Para a maioria das pessoas, a idéia de como deve ser o jornalismo já vem quente, como que recém saída do microondas, pronta para ser engolida por alguém. É assim com toda comida instantânea que se preze, e mesmo sem ponteiro no relógio biológico que dê para tanta correria, ela há de manter-se como a redenção do estômago moderno. Qualquer lanche de brecha hoje em dia vira refeição inteira e mesmo o prazer da degustação fica em segundo plano diante do prato que promete encher com o mínimo de substância possível. Não é difícil perceber, porém, que barriga estufada não é sinônimo de nutrição, e as crianças famintas da África são um triste exemplo disso.

As pré-concepções envolvendo o processo de comunicação mediada e seus personagens como um todo, muitas vezes escondem preconceitos forjados em axiomas. O jornalista não precisa ser o cara boêmio com opiniões frias sobre todos os assuntos globais, assim como o espectador não está disposto a acreditar em tudo que a mídia transmite. Até mesmo a concepção mais branda, que considera ambos os lados como produtores de um processo multilateral de informação, pode ajudar a criar um abismo entre o profissional e o humano, ao apresentar-se sobre o escudo inquebrantável da objetividade.

As várias definições de jornalismo existem para suprir o vazio conceitual umas das outras. Mas sendo ele janela, ou sendo lupa, pouco importa, já que no mundo do conhecimento qualquer entrelinha reina ditatorialmente com uma constituição na mão. Enquanto os grandes manuais de redação fazem escola, a política do furo é sedimentada sobre os escombros da veracidade. No meio disso tudo, qualquer conclusão sobre o venha a ser a ética perde fôlego, pois é muito mais fácil apontar o que não é.

É válido pensar, portanto, que a ciência responsável por contar a realidade para as outras pessoas cumpre melhor o seu papel quando discute a si mesmo sob o ponto de vista do cidadão. Porém, o que se percebe é que o noticiário nunca alcança a raiz dos problemas expostos e a superficialidade vê uma brecha para arrastar o mundo. A sensação de confusão aumenta com o número de dados, números, fatos disponíveis, ironizando qualquer possibilidade plena de democratização da informação.

Há muito escândalo e todos se espetam, pois é melhor ser agredido em rede nacional que ser esquecido. Ao esgotar-se um assunto, uma fonte seca continua a suprir uma manada voraz com a única coisa que tem a oferecer: vento. Todo mundo respira de graça, mas paga para consumir a bizarrice que é a fusão entre marketing, jornalismo e entretenimento, roteiro dos programas de maior audiência nacional.

Assim como água parada transmite doenças, o jornalismo que não ajude as pessoas na adaptação e compreensão do mundo, não convence. De todas as epidemias, porém, a pior é a disseminação do saber sem sentimento, pois leva ao niilismo e à descrença geral na sociedade. Afinal de contas, como pode uma pessoa ser tocada sem que haja uma sensação reconhecimento, de sentimento comum?

A mobilização, enquanto reação, precisa ser despertada. E quem tem ego sabe que o mundo é nada menos que a filtragem daquilo que se é, com a conjugação de elementos que se sabe, por meio de experiências que se teve. A humanidade vive à procura de uma forma de deixar sua marca no mundo. O jornalismo que compreender isso será mais espelho, mais céu aberto. E mudará o mundo a notícia que despertar no leitor a vontade de procurar um foco próprio, de atualizar para construir.




On August 19 2008 Edit






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