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Era um dia qualquer do meio de junho, há dois anos atrás. Fazia frio enquanto chovia torrencialmente há dias, e era feriado.
Como pode chover com todo aquele frio eu nunca entendi. Sei que os dias eram cinzas e havia uma cortina de água na minha janela que não colaborava nada com o meu humor que não era o mesmo desde que tudo acontecera, tantos meses atrás, e nem mesmo a idéia de desconhecido que a palavra "deserto" me causava era suficiente para me animar. Não pensava em viajar...
Na verdade eu pensava sim, mas não no sentido que 'viagem' deveria ter para um feriado prolongado em um país estranho. A minha viagem era pra me levar de volta à tudo que sempre foi meu.
A idéia de voltar pra casa por alguns dias não saía da minha cabeça desde que tinha visto uma passagem de ida e volta por míseros 250 reais, que naquela situação pareciam nada desde que me comprassem um mínimo de paz de espírito. Já tinha planejado tudo, já me via indo para a aula em algum instituto psiquiátrico que eu nunca conseguiria encontrar sozinha na quinta de manhã com o passaporte na mochila, e de lá, não voltar com os amigos de sempre até o metrô (já que tinha desistido de me virar sozinha após as catástrofes históricas e agora me limitava a seguir as pessoas que sabiam pra onde estavam indo), e responder quando me perguntassem "tudo bem, estou indo pro aeroporto. estou indo pra casa". E no aeroporto, quando embarcasse em um vôo de quatro horas só com a minha mochilinha e me perguntassem "mas e o resto da sua bagagem, você não tem??" e eu dissesse "não, está tudo bem. estou indo pra casa"
Mas eu não fui pra casa e lá estava eu, trancada naquele novo lugar que eu tinha para chamar de 'casa', com frio, vendo uma cortina de água na minha janela.
E então eu bati a porta da 'casa', e fui pro deserto.
Primeira parte, rodoviária de Santiago. Como as passagens direto pra San Pedro (em 26 horas !!) estavam esgotadas (resultado de decidir tudo em cima da hora), iríamos, eu e Bernardo (eu e Bernardo, sempre eu e Bernardo) até Antofagasta e de lá pegaríamos outro ônibus para San Pedro, que o tiozinho nos assegurou que eram constantes e seria tempo de desembarcar, almoçar algo rapidinho na rodoviária e subir no outro ônibus.
Eu precisava me distrair, eu precisava estar em um lugar onde pelo menos eu pudesse fingir que estava tudo bem, onde eu pudesse parar de lembrar... e o único motivo de eu estar ali, naquele ônibus, era porque tinha feito o Bernardo me prometer que a gente iria se divertir e esquecer tudo. Eu precisava me divertir.
19, 20, 21 horas depois (ou algo assim, porque quem consegue mater rastro do tempo vendo aquela paisagem monótona hora após hora?), chegamos em Antofagasta. Feia, velha, terrível Antofagasta, a pior cidade que já vi nessa vida, com a única vantagem de estar encostada no Pacífico. A rodoviária não era uma rodiviária... era mais como uma garagem suja com ônibus velhos, e um guichê pras passagens.
"San Pedro? Só às 16h".
E aquela história de ônibus de meia em meia hora? Enfim, que jeito. Andar pela cidade por horas... Nada pra ver, nenhum lugar pra ir, sentamos pra ver o mar. O Pacífico tem a cor diferente, o som diferente, e suas ondas são diferentes. Eu nunca escolheria o nome "pacífico" pra esse mar que tanto me perturba.
As horas se arrastaram mas chegou, e San Pedro finalmente. Outro ônibus velho, outra paisagem monótona na janela, mais alguns kilometros intermináveis. Mas estávamos indo, e isso que importava.
Ou quase...
Em algum lugar no meio do nada, exatamente igual a todos os outros lugares no meio do nada que vi por quase um dia inteiro, o ônibus quebrou. Bom, não foi culpa dele, ninguém deveria ter pedido que fizesse uma viagem tão longa com toda aquela idade. O fato é que já haviam passado mais de 26 horas e eu não estava onde devia estar, e não sabia quando ou como chegaria.
Esperamos... dormimos.... Bernardo estudou e eu ouvi música... Bernardo ouviu música e eu li... conversamos... rimos... lembramos... Não era pra ser assim, a idéia toda dessa viagem era esquecer. Eu não tinha esquecido em nenhum momento do caminho.
Outro ônibus chegou, outra vez a estrada, outra vez "só mais algumas horas", e às 23h finalmente chegamos. Estava bem escuro, e fazia um frio que eu, inocente, não tinha previsto para um deserto, e eu estava exausta. San Pedro é bege de areia, com um céu que não apagou nenhuma estrela, maravilhoso, e uma rua de civilização.
(...)
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