7/3/09
"Voltar para casa é o que justifica a viagem... eu sempre achei fundamental ter para onde voltar. A volta justifica a ida e não o contrário. Quando a poeira vira banalidade está na hora de voltar pra casa. E todo mundo precisa de ter casa pra voltar.Porque é depois dos passeios que o sofá mofado fica mais aconchegante. Depois das roupas sujas jogadas lá fora é que se pode vestir a camisola rasgada e dormir num travesseiro que deve, por osmose, assumir o formato da nossa cabeça (...)
Deve ser assim no tal amor... um dos amigos mais queridos me perguntou hoje, debaixo de uma árvore, porque é que, depois que a gente decide que quer um relacionamento amoroso com alguém isso assume assim, esse significado tão importante na nossa vida, dando-nos essa sensação de incompletude caso não se esteja acompanhado. E a resposta me veio mais imediata do que eu imaginava: porque ter um amor é ter casa para voltar. É ter a quem contar as viagens de cada dia: do rapaz que pediu esmola no sinal e você deu um pirulito; da moça triste no balcão pra quem você ofereceu uma nota de dez e um sorriso e só pediu troco do primeiro; dos carros que buzinam no sinal verde enquanto você escuta música lilás e dá a vez pro senhor de blusa branca e bengala passar...
É bom viajar e às vezes vital fazê-lo sozinho. Mas é bom ter pra onde voltar. Para o amado que nos doa abraços - esta espécie de parade que firma quadrados; e beijos - que viram sempre uma possibilidade de janela, no ar, no ar, no ar e no clima. Querer e aceitar menos que isso é viver em pousada. Num conforto impessoal. É contar pra dona da pensão suas aventuras e ela lhe sorrir hospitaleira, mesmo que você e ela saibam que ela faria isso com qualquer hóspede. Eu não quero ser qualquer hóspede. Eu quero ser o dono da casa com toda posse que isso pode sugerir, mas, principalmente, com todo o jardim que eu possa plantar no olhar de quem amo. Eu não quero ser dona de pensão. Não quero um balcão que me separa de um abraço, nem um sorriso pendurado de boas-vindas para quem vier de passagem. Eu quero ser porta de entrada seguida de tapete e som na sala. Cheguei a conclusão que nossa/minha geração é descrente por preguiça e comodismo. Acreditar dar trabalho. Requer faxina, pratos limpos, roupa e alma lavada...Acreditar no amor exige fatiar o discurso do "eu pego, mas não me apego" em sete pedaços de incerteza e levá-lo ao forno em banho-maria, até que a casca doure e você enfie a faca. Depois de todo esse processo, a maior parte vai estar murcha e do doce azedo de cada medo da entrega, você sugue, lamba e chupe o néctar do encanto possível e contínuo. Você tome banho maria mais josé, porque na banheira das casas só cabem corpos se vêm de dois. Esse, aliás, é o tipo de experimento alimentício que só pode ser feito na nossa casa. Jamais em hotel, motel ou número limitado de estrelas. (...) Sem perdão de qualquer trocadilho, a questão não é casar, nem ter um caso: é ser casa de alguém, é ter casa em alguém.. É frio na barriga sem prazo de validade e sem ser porque a geladeira estava aberta. Eu quero viajar, viajar, viajar... Nas estradas, na maionese ou no meu mundinho. Mas ao final do dia, voltar para casa, de madrugada, deixar o carro na calçada, as malas e os malas jogados no lixo; procurar a chave feito ela fosse palavra-chave; girar a fechadura já prenunciando o giro do abraço e em seguida encontrar teu sorriso, acalentando minha paz..."
[Samelly Xavier]