7/6/09
Eu olho fotos de mais dois anos atrás, quando eu podia dizer alto e claro pra quem quisesse ouvir: "EU SOU UMA PESSOA FELIZ!" e penso, quando foi que isso mudou? A vida não era mais fácil, mas era. Eu tinha problemas e frustrações parecidos com aqueles que tenho hoje, e ainda assim conseguia lidar com todos eles. Conseguia dar a volta por cima sem precisar de ninguém. Fazia tudo sozinha, sempre segura de que as coisas dariam certo no final. O mundo dá voltas, sabe? Eu tinha consciência disso. Eu sabia que tinha que amar mais a mim do que qualquer outra pessoa. Aliás, tinha que me amar primeiro. Amar os outros era uma consequencia. Quando foi que eu inverti a minha vida e os meus valores? Eu sempre fui uma pessoa maleável, adaptável, que se molda de acordo com aqueles ao meu redor. Sempre frequentei diversos círculos - na maioria das vezes, com diferenças gritantes entre si - e me saí bem. Me pergunto quando foi que eu perdi a paciência com os outros (e comigo mesma). Quando foi que eu deixei a emoção tomar conta da razão, quando deixei de tirar fotos, quando me deixei transformar física e emocionalmente de uma forma que eu nem consigo explicar. Quando foi que eu parei de passar tempo com a minha família, de ter orgulho de quem eu sou e de onde vim, de onde moro, do meu trabalho. Quando foi que eu deixei de me arrumar, de me olhar no espelho e gostar do que eu vejo, de ligar pros meus amigos. Quando foi que eu deixei de fazer o que queria e dizer o que queria? Eu me pergunto. Tenho me perguntado muito nos últimos dias. Quando foi que me tornei extremamente crítica, bitolada, amarga e de cara com o mundo. Quando foi que comecei a me importar com o que os outros pensam? Lembro que eu queria ter 17 anos pra sempre, depois queria ter 14, e agora queria que tivessem sido 8 ou 9. Era tão mais fácil quando todas as minhas preocupações se resumiam em comer, acordar pra ir pra escola e fazer o tema de casa.
Acho que eu cresci. Amadureci um pouco, ou muito, mas não o suficiente. Quando eu penso que já vi de tudo, que já passei por muita coisa, aí é que percebo que não vi nem passei por nada. Quando eu me dei conta disso? Quando foi que eu parei de acreditar em mim e nos meus sonhos, de pensar que tudo termina bem, que deus escreve certo por linhas tortas. Quando foi que eu deixei de ser eu mesma e de fazer favores só pelo prazer de ajudar alguém? Quando foi que eu comecei a voltar cedo das festas, a me apegar aos outros, a ler fofocas de celebridades, a tomar decisões importantes eu, sozinha, sem ter ninguém a quem culpar pelas minhas escolhas? Quando foi que eu desisti das aventuras? Quando foi que eu me entreguei, que esqueci que sou jovem, que o mundo e o futuro dependem de mim? Quando foi que esqueci de dialogar, mesmo sempre acreditando que o diálogo é a chave de todas as coisas? Quando foi que fechei os olhos pra não ver as coisas acontecerem, que envolvi quem eu amo no meu mundo e nos meus planos até sufocá-lo e chegar no limite? Quando parei de correr atrás, quando foi que desisti de reconquistar o que eu perdi? Quando deixei de dar valor a quem eu amo e quando foi que eu deixei o amor acabar? Quando foi que passei a me expressar tão mal? Quando foi que as pessoas se tornaram desinteressantes, que eu me tornei desinteressante, deixei de curtir small talk, parei de ler revistas em quadrinhos, resumi minhas paixões numa lista de poucas palavras. Quando foi que eu parei de escrever? É tão bom escrever. Quando foi que eu me tornei tão ciumenta e explosiva? Quando foi que passei a pensar que meus defeitos são muito maiores que aquilo que há de bom em mim e por deus, quando foi que eu parei de me dar valor? Quando foi que parei de acreditar que o que não me mata, me fortalece e por que? Era tão bom poder chorar e espernear e só levar um puxão de orelhas. Acho que a resposta é bem fácil.
Mesmo não tendo passado por tudo, já passei por muita coisa. Não sou vítima, mas sei que já enfrentei a mim mesma, vi meus pais se separarem, vi meu irmão triste e isolado e me senti impotente, já perdi muitas pessoas queridas, já me arrependi de não ter passado mais tempo com elas. De não ter perguntado o que eu queria perguntar. Aí eu lembro que tem tanta gente que ainda está aqui e que são tão boas ou melhores quanto as que já se foram. Tudo tem um lado positivo, não? Hoje eu entendo que algumas coisas a gente tem que fazer sozinha, outras acompanhada. Tem coisas que só se tem quando se compartilha com os outros. A vida não foi feita pra ser vivida no isolamento, né? E aquele que disse que as pessoas não mudam está muito enganado. Elas mudam, só precisam acreditar que podem mudar. Eu dei alguns passos pra trás, outros pra frente, e ainda espero que tudo melhore. Espero que a Terra gire em outra direção e que o céu se torne rosa ou amarelo, que os cachorros miem e os gatos latam. Espero essas coisas impossíveis, assim. Essa é uma parte de mim que não mudou.
Já dizia John Donne: “Nenhum homem é uma ilha".