Eu não sou o PVC.
2/13/08
Para quem não sabe, o PVC a que me refiro é Paulo Vinicius Coelho, chefe de reportagem e comentarista de futebol da ESPN Brasil.
Achava o cara meio pentelho. Jornalista de memória inegavelmente prodigiosa, volta e meia solta uns comentários absolutamente irrelevantes – como “Tem quinze anos que o Corinthians não ganha do Palmeiras no inverno”, ou “Naquele Flamengo e Vasco de 52 fazia 28 graus no Maracanã”.
Não chegava a enquadrá-lo nos adeptos do tal “futebol moderno”, apesar de vez por outra reconhecer nele alguns traços característicos dessa “escola”. De qualquer forma, sempre o considerei um chato de galochas. Excelente analista tático, eu simplesmente optava por ignorar essa qualidade e exaltar a chatice do indivíduo. Por isso sempre achei sensacionais as paródias que Marco Bianchi, da MTV, fazia no RockGol. “Qual era mesmo a escalação daquele Cabofriense de 42? Pepita, Furúnculo, Arinélson, Zarolho e Farofinha. Alcebíades, Gordo, Muqueca e Batatais. O ataque... qual era mesmo, Paulo?... ah, Polenta e... Mariola”.
Isso até ler a reportagem escrita pelo cineasta João Moreira Salles publicada na revista Piauí deste mês.
Nela, o documentarista destrincha a personalidade de Paulo Vinicius Coelho, faz sobre ela uma radiografia tão completa quanto as análises que o próprio PVC faz das partidas a que assiste. Trabalhador incansável, sempre corre atrás do maior número de informações sobre os times, jogadores, comissão técnica. Busca tirar a confirmação empírica de todo o conhecimento que adquire. Ele quer a verdade dos fatos. A verdade pura e simples dos fatos, sem subjetivações. Como bom jornalista, é a isso que ele tenta se ater. Ganhou meu respeito. Ainda o acho chato pra cacete, mas há de se reconhecer que o cara é bom.
Só que isso também me fez pensar.
Porque foi aí que bateu a revelação dura e cruel (dir-se-ia pura e simples): eu não sou o PVC. Eu não me atenho à verdade pura e simples dos fatos, nem ao menos acredito na verdade pura e simples dos fatos. Fatos, pra mim, podem ser tudo, menos puros, simples ou mesmo verdadeiros. Nem sei se eles existem.
Eu acredito na fábula, na mitificação, na poética do futebol. Um amigo meu, ao ler minha narrativa da folclórica história em que o Garrincha driblou o time todo e, ao invés de fazer o gol, voltou pra driblar o cara que tinha faltado, disse que “essa história do Garrincha é clássica. Independentemente de como foi contada, é genial”. O PVC provavelmente discordaria. Provavelmente tentaria descobrir se isso aconteceu mesmo, e como ela ocorreu de fato.
E a constatação óbvia, que teria sido um pouco mais útil se eu a tivesse feito há pouco mais de um ano, é essa: eu não sou o PVC. Eu não sou jornalista. Eu não sirvo pra dar informações, relatar fatos, dizer o que aconteceu. Não sirvo pra colocar em palavras escritas organizadas texto coeso coerente vírgula parágrafo ponto final
Não sirvo pra análises táticas intrincadas, nem pra banco de dados pontos corridos enciclopédia o Flamengo e Vasco de 52 foi assim.
E, afinal de contas, as informações nem sempre dão conta, mesmo que façamos de conta que sim.
Mesmo quando elas dão conta, acabo preferindo ficar preso a Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, a um futebol romântico, a uma vida romântica, sem influência direta e previsível de fatos e informações.
Eu sou um Calazans perdido nas páginas d’O Globo, velho demais pra acompanhar os trâmites do “futebol moderno”. Ou futebol moderno, sem aspas. Vai ver as coisas são assim mesmo e eu não consigo mais entender. Eu não tenho cara de pontos corridos.
Eu sou apenas um cronista de mim mesmo, vivo e revivo a vida nas minhas palavras e nem sei mais o que aconteceu e o que não aconteceu. O que é verdade e o que é ficção que eu inventei. E nem me importo, porque não faz diferença.
Eu sou meu perfil do Orkut, meu fotolog, o Jardim Suspenso; as fotos que eu tiro, os desenhos mal-feitos que faço de mim mesmo. Sou o cara que se apresenta com um aperto de mão e um “Oi, beleza? Gabriel, prazer”, ou como uma falácia e um círculo vicioso. Como a estrela cadente que não realiza porra nenhuma de desejo.
Sou, enfim a metáfora que eu criei pra mim, os textos literários em que reescrevi o que de mais importante me aconteceu, as conversas por MSN em que reinvento meu mundo, os ecos que me vêm das coisas que já passaram. As reportagens meio subjetivas, literárias e humorísticas da Piauí.
O que eu não sou é a frieza dos fatos, a verdade pura e simples dos fatos, a objetividade fria e constante dos fatos. A reportagem analítica, metódica, pesquisada a fundo em livros e jornais de décadas passadas. Nem sei se coisas assim (verdade pura e simples e objetividade fria e constante) podem existir de fato. Nem sei se caras como o tal Paulo Vinicius Coelho podem existir de fato. Nem sei se fatos podem existir de fato.
Mas o que eu sei, com certeza, é que eu não sou o PVC.
É, eu sei, o desenho ficou meio troncho.