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Pelo retrovisor enxergamos tudo ao contrário; Letras, lados, lestes. O relógio de pulso pula de uma mão para outra e na verdade. Nada muda. A criança que me pediu dez centavos é um homem de idade. No meu retrovisor a menina debruçando favores toda suja é mãe de filhos que não conhece, vendeu-os por açúcar. Prendas de quermesse. A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele. E nesse tráfego acelero o que posso? Acho que não ultrapasso e quando o faço nem noto. O farol fecha. Outras flores e carros surgem em meu retrovisor. Retrovisor é passado. É de vez em quando do meu lado, nunca é na frente. É o segundo mais tarde... próximo... seguinte. É o que passou e muitas vezes ninguém viu. Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu; o que agora só ficou no pensamento. Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento. Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas, mostra as ruas que escolhi, calçadas e avenidas. Deixa explícito que se vou pra frente coisas ficam para trás. A gente só nunca sabe que coisas são essas.
Amém (Fernando Anitelli)
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