9/26/03
Um armazém branco, vazio.
Telas brancas formando um labirinto de telas brancas.
Latas de tinta nos cantos.
Pincéis.
O Pintor tira as tintas da tela.
Tenta, insistentemente,
apagar os rostos que insistem
em aparecer.
(reprodução invertida,
as pinceladas vão sendo retiradas
da tela.)
O pintor apaga uma seqüência de quadros.
Em um quarto, de alguma cidade do terceiro mundo,
um sujeito está sentado em frente a uma tela,
iluminado pelo azul que dela emana.
A tela começa a revelar rostos tortuosos,
em vermelho.
"Não há diferença entre internidade e exterioridade
É tudo igual
O meu rosto,
a minha língua
não há diferença
entre o fora
e o que acontece dentro de mim.
Pouco importa se as bolhas no fim da minha língua são doença ou normalidade
Se podem ser encontradas em livro,
se devem ser tratadas."
Um pintor com olhos de flor.
Um purificador de patente na boca,
uma fucinheira
ou seu aparelho de dentes?
Um grosso mijo em um purificador.
Uma buceta senta em uma patente.
Um grosso mijo em um purificador.
Uma buceta senta em uma patente.
Um grosso mijo em um purificador.
Uma buceta senta em uma patente.
Um grosso mijo em um purificador.
Uma buceta senta em uma patente.
"Merda.
Não será possível transcender?"
(merda dentro da patente)
Purpurina iluminada caindo em cima de patente:
"Sempre será possível transcender,
mesmo através da merda?"
Purpurina dourada circulando em quarto,
iluminada por nesga de raio solar que entra por fresta de janela.
"Sempre será possível transcender,
uma vez que criamos os nossos valores."
Pintor, em transe, olhos de Flor,
mija em si próprio, mirando
o purificador/fucinheira que traz em sua boca.
O líquido purificador escorre pelo seu peito.
No seu peito, uma cruz.
Passagem de tempo imperceptível, ainda close na cruz.
O Pintor coloca uma camisa branca
e vai para o Sol suar.
Anda até a exaustão.
Caminhando.
Compra um picolé.
Senta-se para comê-lo.
Abelhas.
Abelhas nas pétalas de seus olhos de flor.
O Pintor, perturbado, corre pelo galpão.
O Pintor está pintando, ferozmente, em transe, suas telas.
Tinta respinga até na câmera.
Ele começa a ficar incrivelmente sujo,
como um guerreiro,
babando sangue.
Porcos entram no galpão,
vestindo roupas de gala de dor.
Imensos porcos rosados escritos "dor" (cenário de dor).
Os porcos oincam até os cantos.
Chegam até as tintas, de várias cores,
mas latas sem rótulo.
Os porcos derrubam as latas.
que derramam tinta pelo chão.
As tintas chegam até os pés do Pintor.
O rio de Mijo escorre pelas pernas do pintor,
misturando-se com a tinta.
Corte.
O Mijo cai em cima da tinta, à frente do Pintor,
formando desenhos,
Tela preta.
Surge na tela o dizer "ARTE".
Um homem caminha até o centro da Terra.
(um homem desce um elevador com as paredes cobertas de terra - um painel coberto de terra e desenhos infantis feitos de tinta têmpera)
O elevador chega ao Centro
da Terra.
(a porta abre estamos no Centro da Cidade)
O Personagem observa toda a perversão do Centro da Terra.
Closes em bancas de revista mostrando intrigas, simulação, a subversão espetacular às instituições da Família e do Casamento, vedetes felizes por estarem no melhor momento de suas carreiras/vidas.
Nova cena. Estamos agora em uma trincheira moderna, uma escavação tripulada por 15 negros operários.
Uma escavação. Quinze operários. Negros, mulatos. Sem camisa, apenas calças. Botas vulcabrás. Calor, queimados. Picaretas e enxadas para o alto, incisões na terra, buracos. Tlein, tlein, tlein. Rachaduras. Um tiro em um alvo. Tlec. Suor humano em um pedaço. Tlec. A rocha humana se despedaça. Plec. A voz humana vira asfalto. Vlum, vlum. Pneus pesados. Pés no asfalto. Bonecos atropelados por carros. Vlum.
Em dias, carros passarão por aqui. Asfalto. Por hora, são apenas negros aos pedaços. Obra. Por hora vamos embora. Em horas estaremos aqui de volta. Cigarro. Agora vamos para casa. Cansados. Por hora.
Geladeira aberta. Fúrio enche um copo de leite. Volta até seu quarto. Senta-se em uma cadeira, em frente à uma tela branca, que se encontra em um cavalete. Uma iluminação de interface eletrônica emana da tela.
Vemos a tela. Um rosto nervoso começa a ser pintado, através de stop motion. Áudio de um programa da Globo instala a tensão no ar. Corte, como se o canal tivesse sido trocado. Surge uma nova tela, com um novo rosto já iniciado, que continua a ser pintado, em efeito de animação. Áudio de novo programa, também da Globo. A "mudança de canais" continua por dois a três minutos. O aparelho é apagado.
O sujeito toma o seu leite, engole de maneira comedida. Está calmo.
REDE GLOBO APRESENTA
"O GRANDE ROSTO DA NAÇÃO"
esse ta ainda melhor do que o do mendigo