close

Member Login

Please log in to cast your vote for guiguibizarro.

Forgot your password?
 
close
You will be charged 0 for this gift when you post your comment.
This gift will be added to your comment for free!
 

www.tragsnart.co.uk/arthub/lempicka/lempicka.htm

guiguibizarro

Time Goes Back   More

Recent Photos

10/5/03
10/4/03
9/26/03
9/14/03
8/14/03
RSSRSS
guiguibizarro's photo from 9/14/03
Permalink | Share: Email Facebook Other

9/14/03
delfins ou sobre o fim do mundo que costumávamos ouvir [ou dar ouvidos]
tratado sobre a relação entre mendigos e peixes

:: capítulo um ::

joão, o mendigo,
joelhos distorcidos
rosto jerusalino
cheio das mais estranhas doenças de pele e do espírito
um mutante
uma verdadeira visão
à meia luz
à meia noite
anda com dificuldade
movimentando-se no justo horário em que poucos estão nas ruas
em que a maioria já está recolhida em seus cantos banhadas pelo sol
espetacular
este é o horário em que joão escolhe para se movimentar
em dar liberdade à sua estranha mutação
que escurece
seus sonhos de andar
e quando dorme, joão sonha
cada dia com mais claridade
a natação na joão afonso, que cada dia ele cruza o olhar
chegará um dia arrastando-se
ninguém o ajudará
mas também ninguém o atrapalhará
será uma manhã de vertigens
as ruas vazias
mergulhará de cabeça, feito um réptil,
na parte mais funda desse oceano
cheio de vapor, escuridão e gritos de jogo de pólo
o simples toque já será um milagre
já será uma radiosa manhã
cheia de crianças n`água
um professor reconchudo e sorridente
de óculos, a lhe entregar bóias
os primeiros passos evoluirão até o ponto da primeira braçada
e da primeira virada se seguirão intensas e repetidas viradas
o horizonte tornar-se-á todo conhecido,
mas intensamente sentido
lembrar-se-á de cada braçada
de cada flash de sentido
e não haverá mais diferenciação
entre interioridade e exterioridade
entre imensidão e superfície
milhões de peixes virão lhe abraçar
luz, luz, manhãs de luz, raios corajosos e penetrantes
rompendo clarabóias,
vapores,
prédios,
árvores
caídos de grande distância
sobre nós
fazendo-nos lembrar
que acima de tudo
somos luz
a respiração automática do mendigo
cada vez mais sentindo
o perto o longe o indiscernível
não mais sendo um ponto um corpo fixo de dor
sem mais a lembrança dos joelhos tortos, mutantes, signos de dor
apenas mero deslizar de corpo lúcido, lúdico
o sentimento de apresado
como a criança que perde a bóia e começa a se afogar
a outra que imagina no handball voar
o sadístico homem cinza
que em um apartamento pós-moderno refestela-se de calor
escolhe uma entre milhões de sungas cinzas
e atira-se na doce superfície de sua piscina sozinha cor de luz
pois o mendigo
açoitado pelas intensas e repetitivas imagens de um passado
corpos cruzando-se entre si pela rua da praia
momentos em que ainda não era mendigo
e cruzou por uma mendigo que intensamente lhe olhou nos olhos
[ e nesse momento ele perdeu sua alma
e passou a absorver,
e não mais repelir
a dor ]
dias e dias em que passou por um mendigo sempre de cara para a parede
a dormir
na chuva
no sol
a cozinhar dor
corpos se deslocando
carros
motos
rodas
milhões de rotações por minuto
milhões de ritmos cardíacos
milhões de estações de tv e rádio
milhões de alucinações
[ um sossegado satélite na estratosfera ]
[ a cruzar informações,
como shiva,
a dançar,
com seus seis milhões de braços,
em cima do corpo do demônio
como um motoboy a catar piolhos imaginários e a abraçar
um intenso urso de pelúcia
como um urso detonado a assustar crianças e depois explodir sua cabeça
como cruzar com o último olhar de um suicida
e depois saber da notícia
e suspender o almoço,
e suspender a janta,
e suspender a vida,
e ficar cozinhando a notícia
começar a colecionar os paralelepípedos
ladrilhar todo o chão do apartamento com paralelepípedos
e cada dia, um paralelepípedo, cozinhar
como empinar pipas da janela
jogar fatias de pão às pombas, aos cães ou aos carros,
do terceiro andar
como colocar fogo em uma carteira de trabalho ou um passaporte
em um corredor branco e comprido
de uma grande bola azul incandescente habitacional
e subir correndo
lembrando-se de quedas e lembrando-se de pulos
lembrando-se de momentos em cima do muro
de choques em cercas elétricas
fogueiras de são joão
de tudo
sobes tanto
em tantas noites
que lá fora
o dia já vai claro
não dormiste
não sonhaste
tudo foi intensamente real
uma noite incansável
enquanto lá dentro
pastores zelavam pelo caos
em um apartamento pós-moderno detonado
em meio a uma manhã de janeiro
a cidade derretendo
em meio a uma montanha de pó
joão ou quem o valha chega no último andar
pressente não há terraço, cobertura
é isto, só isto, é isto o último andar
mas há uma janela
abre-a de maneira violenta, acelerado
e grita, um grito lento e longo
vidraçante
o vulto plácido de joão emerge da água
em um pulo grandioso
sai com todo corpo da água
ao invés da virada
enquanto ao lado
corpos se congelam
em posição fetal
em meio a mais uma virada
o corpo e o grito de joão em meio ao salto
tudo branco



ao fundo,
buzinas e o som de carros,
do fundo,
volta-se a ouvir


[fin]

Guestbook Comments (3)

uau, lindo, cara, lindo !

tenho medo de me expandir, acho que por mais absurdo que seja, costo da terra, nesse plano infernal em que vivo, o resto é desconhecido, tenho medo do invisível, tenho medo de levitar...tenho medo da tal expanção...
até agora esses pensamentos não me levaram adiante.
me sinto em um labirinto de informações rizomáticas...
ai, acho massa aquela história de colar uns lambs por aí com instruções e tal...
artisticamente falando...
a metafísica não entra mais no meu cotidiano, pois fecho os olhos...

voltei a metafísica, mas as vezes fico distante da "realidade" doi ver que tudo é tão diferente do que aprendi no colégio...

To leave a comment, please log in by clicking one of the following


or join Fotolog now - it's free!
Connect
(for comments only) or join Fotolog now - it's free!