"A gente se vê amanhã"...
11/18/09
Essa é a primeira vez que "falo" sobre isso, ainda procuro nem pensar nela e na falta que ela nos faz...
Já faz 17 dias que ela se foi. Escolheu o dia certo, o dia que ela sempre ia ao cemitério para levar flores para o meu avô e não se cansava de contar pra todo mundo como estava lindo, cheio de flores por ser o dia de finados. Nesse ano ela nem pediu para levarmos flores para ele. E nesse ano parecia que todo mundo tinha levado flores especialmente para ela...
Se a gente fosse dividir nossas vidas em 3 partes, o mais comum seria o começo ser a nossa infância, o meio a nossa fase adulta e o fim a nossa velhice. A vida da minha avó teve um começo difícil, apanhava, foi criada trabalhando na roça desde muito pequena e teve uma experiência muito ruim logo cedo: o pai dela, meu bisavô, era porteiro de um clube em Apiaí, onde ela nasceu. Um dia, ele proibiu um homem bêbado de entrar na festa do clube e no dia seguinte, o mesmo homem o encontrou na rua, com minha avó ainda criança nas mãos, e atirou à queima roupa. Esse foi o início do meio da vida dela.
Desde então, minha avó praticamente criou os irmãos mais novos (eram 9 filhos) e penso que nunca mais pode ser criança.
Mas a vida dela foi diferente mesmo pelo seu fim. A terceira parte da vida não começou aos 60 e poucos anos, só começou 1 semana antes dela partir...
Tudo começou com dores no ouvido direito, depois dores nas costas e quase que à força, levamos-a ao hospital. Essa foi a primeira e última vez na vida que ela foi internada. As tal dores foram resultado de um infarto e pneumomia e mesmo assim ela continuou firme, sem parar de trabalhar por tantos dias em casa. Os dias no hospital se passaram e foi incrível como ela conseguiu aprender tanto em tão pouco tempo.
Passei os últimos dias ao lado dela, conversamos muito e visitei-a o tempo todo. Em alguns dias ela conversava muito, sem deixar o "bigodinho" (o caninho de oxigênio) sair do nariz. Em outros, ela só conseguia falar "oi" com o olhar.
Em um desses dias, ela confessou que tinha um grande medo desde criança: um dia, uma irmã dela disse que ela era tão rabugenta que não teria ninguém no velório dela, que não teria nem quem levar o caixão. E ela respondeu que não tinha problema, que a prefeitura ia levar o caixão dela num carrinho...Isso simplesmente partiu o nosso coração ao meio...
Ela tinha medo de ficar sozinha e achava que ninguém se importava com ela. Depois de contar essa história, ela disse uma coisa que me fez ver como as coisas são perfeitas, como nada é por acaso. Cada dia que se passava, mais e mais gente ia visitá-la, provando que ela era muito querida. Ela não ficou sozinha nem por 1 segundo...e pode ter certeza de que nunca ficará.
Na última vez que conversamos, eu tive a nítida impressão de que era a nossa "despedida". Como seu quadro não evoluía, os médicos haviam decidido interná-la na UTI e induzir um coma, para que o tratamento fosse feito sem sofrimento. Eu senti de verdade que era a hora dela, e acho que ela também sentiu. Como estava muito calor, fiquei abanando-a com um leque e como já fazia muito tempo que ela não comia, comecei a brincar com ela falando várias coisas gostosa e ela tinha que me falar se queria alguma. Pizza, lanche, doce, sorvete...sorvete? Ela levantou a sobrancelha na hora! Era isso! E depois de quase 1 semana sem comer, ela tomou sorvete com gosto...o último sorvete.
Na noite em que nos despedimos, havia uma lua imensa, cheia, bem acima do quarto dela, e sua luz era vista no meio de duas árvores. Pareciam duas mãos fazendo "amém" com uma luz no meio. Eu sabia que eram as mãos que ela sempre juntava a cada pessoa que desejava melhoras. E foi nessa noite, com um "a gente se vê amanhã" que eu me despedi.
Eu sei que "amanhã" não vai ser amanhã de verdade. Isso dói, tem dias que eu nem queria ter que acordar. Mas eu sei que vai haver um amanhã e a gente ainda vai se encontrar.
Em uma semana ela viu o quanto era querida. Ela disse que não valeu a pena ter guardado tanto dinheiro, que não deveria ter sido tão brava e que talvez seja verdade aquele papo de "a vida continuar depois dessa". Isso valeu por uma vida. Agradecemos por ela ter tomado a consciência de que é e sempre será muito amada.
Talvez era isso que faltava para ela partir, dormindo, como ela mesmo um dia disse: "se eu for merecedora, quero morrer dormindo". Ela mereceu.
Vó Nina - * 22/01/1920 - + 02/11/2009
Ai que lindinha sua vovó!
Essa foto tá linda Rê!
Ela era forte heim!
Teve a sorte de partir dormindo,
desta pra melhor com certeza!
Que Deus a abençoe!
Ai, ai tá todo mundo falando do Jacob, tô curiosa pra ver.
Deixou o Edward no chinelo no Lua Nova rsss
Beijinhosssss!