6/26/06
Chico Buarque – Carioca (2006)
Em alguns aspectos, “Carioca” é igualzinho ao “As Cidades” (1998). Os arranjos cuidadosos seguem exatamente a mesma linha, a temática de algumas letras também, o desenho das melodias está parecido e até a voz do Chico parece que foi gravada naquelas mesmas sessões.
E só isso já bastaria para “Carioca” ser um bom CD. Mas o que difere este trabalho de “As Cidades” – e o transforma em algo ainda mais interessante – é a ousadia. Aqui, ouvimos um Chico Buarque menos comportado, menos compromissado com o requinte clássico inerente à MPB e mais interessado em novidades modernas e provocantes. O disco tem efeitos eletrônicos, tem um rap e tem até um palavrão logo no meio da primeira música.
Se isso lhe soa como algo ruim, pode ficar tranqüilo. Não é.
Chico é inteligente o bastante para não se deixar cair no ridículo e exagerar na dose. Ele sabe usar direitinho este tipo de artifício para fazer de seu disco uma obra moderna e interessante.
A primeira música (Subúrbio) é também a primeira pérola. Um retrato realista e cru do dia-a-dia de uma região sofrida do Rio de Janeiro e uma das letras mais impressionantes do CD. Depois seguem-se outras belezas como “Ela faz Cinema”, “Dura na Queda” (sensacional!!) e uma regravação da lindíssima, da emocionante, da irretocável, da maravilhosa “Imagina”, clássico de Chico e Tom Jobim.
Mas reservei para o final deste texto aquela que, até agora, é a grande faixa do CD pra mim. Uma surpresa impressionante chamada “Ode Aos Ratos”.
Já tinha sido gravada na trilha sonora da peça Cambaio, em 2001, e agora ganhou roupagem novinha em “Carioca”. Quando peguei o disco pra ouvir pela primeira vez, não consegui passar dessa música. Sempre que ela terminava, eu voltava.
Com certeza é a mais moderna do disco inteiro, com uma mistura de bases eletrônicas em cima do samba (era disso que Marcelo D2 estava à procura) e um trecho em rap que – acredite! – é um dos momentos mais inteligentes e empolgantes de todo o disco. O refrão e a harmonia são imprevisíveis e as surpresas são todas muito gratas.
E no final, um turbilhão de efeitos sonoros invade a música e encerra este festival de criatividade e bom gosto, como se fossem milhares de ratos fugindo da música, roendo o som e deixando inquieta a sua imaginação.
Uma obra-prima.
Era isso que eu gostaria de ler ao abrir o jornal de manhã. Alguma coisa está fora da ordem. Lá tem Jesus. E está de costas. Viva Felipão! Assino, humildemente, embaixo.