Ontem teve show do Milton Nascimento e Jobim Trio no TomJazz, aqui na Av. Angélica em São Paulo.
Já fui em vários shows do Milton na vida, mas nunca tinha ido num como o deste domingo. O lugar era pequeno, bem pequeno, o palco ficava a 17 centímetros de distância da nossa mesa. Vi o Milton de um jeito diferente ontem.
Era tudo tão intimista que, de repente, você não estava mais diante de um dos maiores ícones da música brasileira. O Milton que cantou ontem estava lá como se estivesse numa reunião na casa dos amigos. À vontade, desinibido, livre das amarras e regras do “showbizz” e dos concertos em casas gigantescas.
O resultado foi um show onde ele permitiu soltar-se tanto nas atitudes quanto na – impressionante – voz. Mesmo calejado pela idade, o timbre do Milton ainda esbanja força e emoção. Nos momentos em que sua afinação falhava, sua sinceridade e entrega compensavam. E assim, entrando no palco ao som de “Só tinha de ser com você” e saindo ao som de “Cravo e Canela” e “Chega de Saudade”, Milton Nascimento emocionou o pequeno e sortudo público do Tom Jazz: “Estamos aqui hoje por um único motivo, que se chama Tom Jobim”.
De fato, a presença do maestro estava no ar. No palco, seu filho e neto (Paulo Jobim e Daniel Jobim, respectivamente) relembravam Tom não só pelo talento musical mas pela quase assustadora semelhança física. Ver Daniel Jobim sentado no piano, de paletó e chapéu, solfejando as notas da mesma maneira que fazia seu avô é uma prova de resistência aos corações mais sensibilizados. Ainda mais quando ele desfila uma de suas novas composições – a linda, linda, linda “Dias Azuis” – e mostra que tem realmente o sangue do maestro nas veias.
E assim foi o encontro de gigantes que aconteceu ontem à noite. Em tempos de vendavais destruidores nos campos férteis da nossa música, este pequeno sopro de nostalgia, talento e genialidade foi mais do que bem-vindo. Grande disco, grande show.
De onde estiver, Tom Jobim também aplaudiu.
Cara, só não choro de arrependimento por não ter ido porque compromissos filosóficos tem me segurado insistentemente em casa. Parabéns pelo post, muito bem escrito. Parabéns pelo espetáculo, que seguramente foi, com o perdão da palavra, espetacular. E parabéns, sobretudo, ao seu gosto musical, que prima por uma sensibilidade muito, mas muito acima da média. Amém.