Avatar fafis

Entrou fumando no carro, e eu, que sou só um menininho, fiquei torcendo pra que ela apagasse o cigarro. Mas não ia. Então Rafael Zanatto, o herói da molecada, ficou lá, encolhidinho no seu canto, observando o cigarro que ela segurava entre os dedos, aquela seta laranja apontada pro céu, e nem percebeu que ela, por sua vez, também o observava – por debaixo das sobrancelhas, com desdém: pois ela sabia que ele era apenas um menininho encurralado.

Um menininho encurralado e patético, morrendo de medo daquele cigarro aceso dentro do meu carro, mas atraído pela brasa, também. Lembro da sala de casa toda escura, meu pai fumando na sala: só se podia ver o ponto laranja subindo, ardendo, depois descendo, descansando.

-Não fuma aqui dentro.

Ela continua me olhando, impassível. Desce o vidro, e com um piparote arremessa o cigarro pela metade ao asfalto, onde ele cai ainda vivo, mas depois de um tempo fica cansado daquilo e se extingue. As fagulhas cintilaram pelo ar da noite e desapareceram sem deixar rastro de sua existência brilhante. Foi um arremesso maravilhoso, vindo dos seus dedos finos. Qualquer hora é hora de se apaixonar.

-Você é muito chato, você sabe disso?

Neguei.

Pus o carro em marcha, e no looking back now, fui pela rua atravessando as perpendiculares, eventualmente fazendo uma curva à esquerda ou à direita, mas sem parar, riscando o mapa como uma faca, e a mão dela, seus dedos enrolando meus cabelos, num ato irremediável de carinho. Ei, eu sei.

Ficamos lá, vendo a rua se desenrolar, como sentados num sofá em frente à tevê. A rua nunca acaba, nada nunca chega. Levanto seu vestido, aliso sua coxa.

-Bronzeada?

Ela me olha, de novo por debaixo das sobrancelhas, como se eu fosse só um menininho. Eu continuei sempre em frente, ela continuou a enrolar meu cabelo entre os dedos. Difícil dizer o que se passava na cabeça dela. Quanto a mim, o que eu tinha em mente ela tinha na calcinha. Colocou a mão no meu ombro, no meu peito, e eu fiquei desesperado com a idéia de que ela sentisse meu coração bater. Batia, talvez batesse, mais forte. Virei o rosto, ela me observava, com um sorriso, triste, que eu retribuí. Pois todo mundo sabe que não duraria mais do que aquela pequena viagem. Perpétua, não obstante.

We chopped through the night and we chopped through the dawn.

Passava a mão no meu cabelo, e eu continuava, fazendo o carro cortar ruas, avenidas, a cidade inteira, dividindo entre esquerda e direita, entre antes e depois, e o único momento e lugar que permaneciam era ali mesmo, agora mesmo, onde estávamos, e ela passava a mão no meu cabelo. O tempo passou mesmo assim (sem freio, eterno, imparável), a noite ficou cada vez mais escura até clarear timidamente. O carro fez uma breve parada, e tudo era de um azul frio, que esquentava. De joelhos, pois a estrada nunca acaba, a linha segue sempre adiante, o sol desponta e a música permanente do rádio. Seus lábios, uhm, suculentos; ela me olha em desespero. Sorrio Não há nada com que se preocupar e, com cuidado, beijo. Ela me puxa pelos cabelos.

Acordei e me servi um copo de vinho, sem nem pensar entrei no banho, cantando. Só me dei conta do que fazia quando fiquei com medo de derramar água na minha bebida.

O dia continuou, como sempre continua, e o sol cada vez mais forte. Deixei meus chinelos de lado enquanto tomava cerveja – celebração do tempo. Um dourado brilhante, escuro dependendo do ângulo, eu inclinava o copo até lá dentro não sobrar mais nada, e mesmo assim olhava o fundo de vidro, e não via nada além de além do vidro, e não havia nada, nada mais.

Molhei meus cabelos e andei descalço pelo chão seco, quente e sujo. Os rapazes dizendo coisas, mas eu não prestava atenção. Apenas apreciava enquanto podia, pois depois daquilo, quando meus cabelos secassem, eu sabia, todo mundo sabia, que não haveria nada pra comemorar, nada mais de resto, sobra nenhuma, pois o único tempo é o do agora, e o único lugar é o aqui, e o que passou foi embora, e não adianta. A estrada nunca acaba, nada nunca é o suficiente.

Um bom humor que eu vou te contar.

Mas desde então nada de novo aconteceu.




On June 23 2010 26 Views



Avatar raulfist

Raulfist On 21/08/2010

leram seu post e disseram -opa, um clima bem los hermanos, e eu -ô, porra se tem






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