10/10/07
(EUA, 2007)
Direção: Andrew Dominik
Com: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Shepard, Mary-Louise Parker, Jeremy Renner, Paul Schneider, Sam Rockwell, Zooey Deschanel
Planos abertos, ritmo compassado, personagens lendários... Esse é o espírito do verdadeiro faroeste. Ao contrário do que muitos podem imaginar, um legítimo exemplar deste gênero em questão costuma ser uma produção lenta, quase psicológica, em que os tipos durões que a compõem são colocados no divã para uma auto-reflexão sobre sua existência. Em Os Imperdoáveis, por exemplo, vemos um antigo assassino de aluguel ponderando sobre o valor da vida humana. Em Dança com Lobos, Kevin Costner interpreta um homem enojado com a própria sociedade. Em Os Brutos Também Amam, um frio pistoleiro descobre o significado de uma vida familiar. Tudo sempre ambientado na árida paisagem americana do fim do século 19, repleta de desertos e montanhas tão secas e duras quantos seus personagens.
Esse é o panorama perfeito para o nascimento de mitos. Pessoas comuns que, por algum motivo, adquirem uma aura quase sobrenatural que faz com que seus nomes despertem nos ouvintes uma mistura de medo e admiração. Wyatt Earp, Billy the Kid, Buffalo Bill são algumas dessas personalidades. O mesmo pode ser dito sobre Jesse James. A pergunta natural que surge ao analisar essa situação é a de como alguém que se dedica ao crime ou à intimidação pode se popularizar dessa forma. Em um universo sem televisão e sem rádio, ser um pistoleiro era o mais próximo que alguém poderia chegar de ser uma celebridade.
Jesse James, junto com seu irmão Frank, aterrorizou os bancos e as ferrovias do oeste americano na década de 70 – do século 19, é claro. Só que em vez de se concentrar na ascensão dessa celebridade, o filme opta por ilustrar sua decadência, o que se mostra uma opção muito mais instigante. A história abre com Jesse James organizando seu último grande golpe. Seu irmão Frank já está velho demais para essa vida e quer se aposentar. Os integrantes da gangue original já estão quase todos mortos ou presos. Os irmãos precisam então recorrer a um grupo de amadores formados por, entre outros, Chalie e Robert Ford, fãs da dupla que não hesitam quando aparece a oportunidade de ajudar seus ídolos.
Dos dois, o visivelmente mais atormentado é o introvertido Robert Ford. Desde criança, ele guarda recortes de jornais sobre a dupla de malfeitores. Seu grande sonho foi sempre o de cavalgar ao lado desses ícones. Quando essa perspectiva se torna realidade, ele não consegue esconder sua constante necessidade de aprovação que poderia até ser comovente, se não fosse tão irritante. O relativamente desconhecido Casey Affleck, irmão de Ben, impressiona na construção de um personagem tão complexo e perturbado. Seu semblante cabisbaixo, sua voz que mais parece um sussurro e seu olhar errante compõem um perfil preciso do fã frustrado que procura a vingança pela rejeição de seu ídolo.
O próprio Jesse James também não fica muito atrás quando o assunto é personagens complexos. Ele é o astro que conheceu o ápice do prestígio e da fama que se nega a aceitar o ostracismo quando seu nome perde o peso que outrora possuía. Mesmo estando bem casado, com dois belos filhos, ele ainda anseia pelo período em que cavalgava sem rumo, bebendo com os amigos que o idolatravam e procurando pelo próximo alvo para atacar. Sua psicose chega a elaborar um falso senso de ameaça para justificar seu retorno à vida de fugitivo, mas a verdade é que sua natureza o impede de desfrutar da calmaria. Ele é um rebelde que se alimenta da tempestade para sobreviver. Isso fica claro logo no começo do filme. Enquanto Frank busca se distanciar dos estranhos que formam sua nova gangue, Jesse se delicia com o posto que a fama lhe oferece.
Esse apurado estudo de personagens, aliado a excelentes interpretações e uma maravilhosa fotografia, repleta de paisagens surpreendentes, é o que torna de The Assassination de Jesse James by the Coward Robert Ford um faroeste para entrar no limitado rol de um dos maiores filmes do gênero.
P.S. – O pôster desse filme é igualmente admirável. Com uma imagem tão simples, mas muito bem composta, ele consegue resumir com precisão o que esperar do filme. Brad Pitt, pequeno em um canto, vislumbra com êxtase a abissal paisagem enquanto uma figura ainda menor, quase irreconhecível, o mira com uma mistura de ódio e timidez. Brilhante!