10/1/07
Valente
(The Brave One, EUA, 2007)
Direção: Neil Jordan
Elenco: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt, Naveen Andrews, Mary Steenburgen, Ene Oloja, Luis da Silva Jr., Blaze Foster
O personagem de Erica Bain (Jodie Foster) bem que poderia viver em São Paulo. Apaixonada pelo constante estado de caos que somente uma metrópole pode oferecer, ela brinda os ouvintes de seu programa diário de rádio com uma perspectiva única sobre o que significa viver em um grande centro urbano. Mais do que qualquer outro aspecto, viver em cidades como Nova York ou São Paulo é experimentar um leque interminável de sons e ruídos. Por isso, o hobby da personagem consiste em percorrer as ruas municipais com um microfone e um gravador em mãos, para que todos possam entender a riqueza contida nos lugares mais inesperados.
A lua-de-mel entre personagem e cidade se encerra quando ela é atacada durante um passeio noturno com o noivo David (Naveen Andrews, de Lost). Durante o assalto, David é morto e Erica permanece hospitalizada por um longo e traumático período. Ao voltar à sua vida normal, ele percebe que o ataque que sofrera a havia mudado. Os sons, que antes eram uma poesia para seus ouvidos, agora se tornaram uma constante fonte de ameaça. Sua vida se alterou de forma irreparável. E a única maneira que encontra para superar esse trauma é “se transformar em outra pessoa”, como confessa para o detetive interpretado pelo excelente Terrence Howard em um determinado ponto do filme.
Essa nova pessoa que nasce não se trata de uma super-heroína ou uma versão feminina de Charles Bronson em Desejo de Matar. Ela está sujeita às típicas crises de identidade e insegurança que assolam grande parte das vítimas de crimes violentos. Só que ela prefere não se tornar refém desses traumas e tomar uma atitude.
Esse desejo por vingança não nasce repentinamente. Ela primeiro adquire uma arma somente para ter uma proteção adicional, caso algo parecido volte a acontecer. Logo em seguida, ela se vê novamente envolvida em mais um caso de agressão em potencial. Só que, ao contrário do que aconteceu anteriormente, dessa vez ela tinha a opção de sair ilesa, mas opta por se colocar em uma situação em que a única alternativa é reagir com violência.
Essa ação lhe retorna a vontade de viver que lhe havia sido roubada. A adrenalina que corre por suas veias lhe mostra uma nova forma de superar o passado. Mas, simultaneamente, esse impulso também lhe desperta um grande sentimento de nojo, pois ela tem consciência dos erros de seus atos. Ela sabe que o que faz é uma perversão da justiça. Mas não consegue evitar. Por isso, ela recebe com desdém as ligações de ouvintes que elogiam o misterioso justiceiro. Por isso que ela desenvolve com o policial responsável pelo caso um perigoso elo. Ela quer ser capturada. Ela quer que isso tudo termine.
Dessa relação entre suspeita e policial nasce uma forte amizade. Um sentimento tão presente que Erica se vê tentada a ajudar o detetive a eliminar um problema que o atormenta. Ao mesmo tempo, quando as pistas começam a apontar para Erica, instala-se o dilema do investigador. Ele não acredita mais na justiça convencional. Ele próprio já pensou em seguir caminho semelhante. Quem é ele para condená-la?
Neil Jordan, com seu costumeiro talento para compor imagens, conta sua história com sobriedade singular. O roteiro impecável constrói com admirável precisão os diversos estágios do trauma vivido pela personagem, além de desenvolver uma convincente relação entre a vítima e o policial. E o trabalho do elenco central, principalmente o perturbador Terrence Howard, também se destaca, colocando Valente entre os melhores filmes do ano, se não for o melhor.
P.S. - Adorei esse pôster...