8/30/07
Reign Over Me
(EUA, 2007)
Direção: Mike Binder
Com: Adam Sandler, Don Cheadle, Jada Pinkett Smith, Liv Tyler, Safforn Burrows, Cicely Tyson, Robert Klein, Melinda Dillon, Mike Binder, Ted Raimi
Dizia o velho ditado que, quando a vida lhe presenteia com limões, o melhor a fazer é preparar uma limonada. Para o personagem vivido por Adam Sandler em Reign Over Me, o mais novo projeto do ator/diretor Mike Binder, o destino lhe guardou os mais azedos dos cítricos. Quando estava na faculdade, perdeu os pais em um terrível acidente. Mais tarde, a esposa e as três filhas durante o atentado de 11 de setembro. O que resta é apenas um pequeno vestígio do que um dia foi um ser humano. Um personagem tão amargurado que evita a dor trafegando solitário pelas ruas de Nova York em um patinete motorizado.
Já Don Cheadle vive exatamente o oposto. Ele tem tudo o que um homem poderia sonhar. Sua clínica dentária é uma das melhores e mais freqüentadas da cidade. Sua casa e sua família parecem algo tirado de um catálogo publicitário. E até mesmo suas pacientes parecem não resistir ao seu charme involuntário. Mas, por algum motivo, ele não consegue se contentar com tudo isso. Talvez pela inerente natureza humana de querer sempre mais. Talvez pela inabilidade de conversar com sua esposa sobre seus desejos e anseios. Ou simplesmente por ambicionar por uma liberdade há muito tempo abandonada.
A realidade é que Cheadle está cansado de tanta perfeição que permeia sua existência. Por isso, quando sua filha o pede para a levar a casa de uma amiga, mesmo que isso não seja algo que está acostumado a fazer, ele não hesita. Uma viagem para casa de uma amiga de sua filha é melhor do que montar um quebra-cabeça ao lado da esposa pela enésima vez. Curiosamente, durante essa sua pequena aventura, ele reencontra Sandler, que foi um antigo companheiro de faculdade. Este último, por sinal, não o reconhece. Sua mente tenta esquecer qualquer coisa que o faça lembrar da vida que uma vez teve.
Só que a dor não é um sentimento facilmente extirpado. E, definitivamente, não há modo de fazê-lo sozinho. Quando Sandler percebe que ele pode ter uma convivência com Cheadle sem precisar lembrar de seu passado traumático, ele se agarra a essa nova perspectiva com unha e dentes. Afinal, ninguém consegue ficar muito tempo sem calor humano.
Já para Cheadle, essa é a oportunidade de experimentar uma liberdade que há muito tempo não tinha contato. Com Sandler, ele pode ficar até mais tarde jogando videogame. Ele pode assistir a uma maratona de filmes do Mel Brooks. E até desfrutar de uma comida chinesa às 5 horas da manhã de um dia de semana. Coisas tão simples e mundanas mas que fazem toda a diferença para um sujeito anestesiado pelo tédio.
Reign Over Me não é a mais profunda investigação sobre a dor humana. Em alguns momentos, ele chega ao cúmulo da superficialidade. O personagem vivido por Liv Tyler, por exemplo, parece mais um bibelô que pouco tem a oferecer à trama. O relacionamento que nasce entre Sandler e Saffron Burrows, uma perturbada paciente da terapeuta vivida por Tyler, surge como um passe de mágica, sem muita explicação prévia. Os erros existem, e não são poucos. Mas isso não ofusca o belo retrato de uma amizade que nasce da dor para ajudar seus protagonistas a superar seus obstáculos.
O comediante Adam Sandler segue o exemplo de outros companheiros de profissão, como Robin Williams e Jim Carrey, e se aventura pelo território do drama. A experiência se revela até que bem-sucedida, apesar de apelar para alguns exageros e maneirismos para compor seu personagem. Mas o ator se redime de qualquer erro na emocionante cena em que decide contar para o amigo um pouco de sua história.
Reign Over Me é um filme sobre a solidão, seja ela causada pela perda de uma pessoa amada ou pela impossibilidade de se comunicar com ela. Esse é o sentimento transmitido tanto na cena de abertura, que mostra Sandler andando pelas ruas de Nova York com seu patinete motorizado, quanto na seqüência final, que revela Cheadle fazendo a mesma coisa. Só que nesta última, a solidão vem acompanhada com um toque de esperança.