Rubem Alves e o suicídio
7/8/09
Hoje vou escrever sobre o suicídio. Mas não se aflijam: não estou pensando em me matar. No momento não tenho razões para esse ato, embora não exista garantia alguma de que eu não vá tê-las no futuro. No momento estou contente. Pretendo viver muitos anos, enquanto puder ter alegria.
Por que escrevo sobre o suicídio? Pela mesma razões porque escrevo sobre os ipês. Comovem-me as flores dos ipês e o suicídio dos suicidas. Ambos são belos. O final da comovente ópera Madame Butterfly termina com o suicídio de uma mulher apaixonada. Manuel Bandeira dizia, do último poema que ele haveria de escrever, que desejava que ele tivesse “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. Albert Camus via o suicídio como “um ato preparado no silêncio do coração, como uma grande obra de arte”. Claro que é trágico, horrendo, medonho. Mas é preciso não confundir beleza com flores e riachos cristalinos. Belos são os oceanos enfurecidos, os desertos queimados pelo sol, os abismos gelados das montanhas, o furacão furioso, os olhos do tigre, os vulcões em erupção.
Muitos amigos meus se suicidaram, pessoas que eu amava e admirava. Curioso: todos os suicidas que conheci eram pessoas inteligentes, sensíveis, íntegras, e nas suas vidas aparecia a beleza. Não sei de nenhum vagabundo desclassificado que tenha se matado. Lembro-me de Henry Pitney van Dusen, presidente do Union Theological Seminary onde estudei, homem cristão, teólogo, brilhante, conversador fulgurante, maravilhoso senso de humor, era sempre o centro de todas as atenções. Jamais se pensaria que algum dia ele teria razões para se suicidar. Mas o tempo fez o seu trabalho. Vieram os anos dos quais as Sagradas Escrituras dizem: “Não encontro neles contentamento”. Chegou a decomposição física da velhice. Os esfíncteres fora de controle, a humilhação. Com a decomposição física, a decomposição estética. Tudo era feio, malcheiroso, escuro. Ele e a mulher realizaram o último ato de amor: puseram fim à vida. Há a Ana Cristina César, poetisa, autora do livro A teus pés (Brasiliense): mulher linda, jovem, corpo cheio de vida, brilhante, amada. Mas frequentemente num corpo cheio de vida existe uma alma cheia de dor. Para fugir da dor insuportável, transformou-se em pássaro, voou sobre o abismo. E um outro amigo, jovem, esteta, religioso, apaixonado pela beleza, especialista em liturgia, no hospital, devastado pela Aids, uma luta de muitos anos, sabia que o fim se aproximava, estava exausto de sofrer. Sua mãe estava ao seu lado. “Está muito quente, mãe. Abre um pouco a janela...”. Da sua cama, no sétimo andar, ele podia ver a cidade lá embaixo. “Você parece cansada”, disse à sua mãe, depois de aberta a janela. “Cochila um pouquinho. Eu estou bem...”. Quando ela acordou a cama estava vazia. Também ele se transformara em pássaro.
Algumas religiões amaldiçoam os suicidas. Argumentam que a vida é dádiva de Deus e que somente ele tem o direito de tirá-la. Que miseráveis seres somos nós, condenados a aceitar até o fim as dores que o destino inflige em nosso corpo e em nossa alma. Pensam que Deus é um demônio sádico que nos envia sofrimentos e nos ameaça com sofrimentos mais horrendos ainda se não os aceitarmos e suportarmos com gratidão. Pedir gratidão pelo sofrimento: nenhum homem seria monstruoso a esse ponto. E, no entanto, eles acreditam que Deus exige isso dos homens. Isso, eu afirmo, não é um deus. É um monstro que jamais terá o meu respeito. Se os sofrimentos fossem dádiva de Deus teríamos de sofrer a perna apodrecida pela gangrena até o fim e morrer sem amputá-la: se aconteceu é porque Deus quis; se Deus quis eu tenho de querer. E teríamos de suportar a dor do câncer sem o alívio da morfina até o fim: se aconteceu é porque Deus quis; se Deus quis eu tenho de querer. Os argumentos teológicos contra o suicídio, baseados no medo de um Deus vingador, apenas revelam que aqueles que os mantêm ainda não compreenderam que Deus não tem vinganças a realizar; ele é um Deus de amor.
A vida humana, como fato biológico, não é o valor supremo. Todas as religiões reconhecem que, acima do valor da vida, está o valor do amor. Por causa do amor, até a vida pode ser sacrificada. Todos os que amam verdadeiramente estão prontos a dar a sua vida pela coisa amada. E é isso que dá sentido à nossa vida: as coisas pelas quais estamos dispostos a morrer. As coisas que nos dão razões para morrer são as mesmas que nos dão razões para viver.
Pensei muitas vezes nas razões que me levariam a cometer suicídio. Não se assustem: todas as pessoas, vez por outra, pensam nisto. Acho que os suicídios são raros como são não porque as pessoas estejam convencidas de ser ele um equívoco, mas porque a sua execução é muito complicada e desagradável. Se Deus tivesse colocado no nosso corpo um botãozinho que, se apertado, nos despacharia para o outro mundo sem dor, sem sangue e sem horror, poucas seriam as pessoas que ainda estariam vivas. Acho que eu só cometeria suicídio por amor à vida. A vida é uma coisa muito bela e eu a amo por causa disto. Se, por acaso, houvesse uma situação em que ela apodrecesse e os meus valores virassem carniça e fossem comidos pelos urubus, além de toda esperança, então, eu creio, por não poder suportar contemplar a destruição daquilo que eu mais amo, eu seria capaz de dizer adeus à vida. Eu me mataria por amor à vida...
O que me horroriza não é a possibilidade do suicídio. É a sua impossibilidade: se, por acaso, o meu corpo chegar ao abismo da decomposição e tudo ficar feio e sem alegria, quero ter os meios para abrir a porta da gaiola e voar pelo azul como um pássaro... Mas, e se essa possibilidade me for negada, seja pela paralisia, seja pela violência dos homens bons que querem me manter dentro da gaiola?