3/19/07
CCXVIII
Rio back to Rio Doce
o homem sem relógio
só sabe que ainda não está na hora
o homem sem chaves
sem planos
observando aviões na pista
grandes máquinas de partir
ele tem uma passagem
bagagem
e dor nas costas
pediu um sandiíche de 5,90
apenas por vontade de fumar
uma garota que chegou fala sobre os próprios problemas
lá fora chovia um pouco
ele pôde fumar
aeroportos são lugares de merda
cheios de gente querendo chorar
ele também tem lágrimas
contidas
lembranças de um telefonema
burocracia cria tempo para versos
cria tempo para o ódio
que ele descasca pelas beiradas
tentando ser impessoal
sabe que vai ficar no Rio
mancada alheia de quinhentinhos
mais cedo
ele torceu o pé
aeroportos são lugares de merda
e ele está retido
lê duas páginas de Woody Allen
sem plumas, ou esperanças
já sem expectativa
consegue um sorriso
aeroportos agora são apenas lugares incrivelmente chatos
onde você não pode fumar
um lugar chato do qual você não pode sair pra fumar
porque todos fazem caras muito sérias
e saem para enfrentar problemas
que eles já desistiram de resolver
saem para fumar
e não há mais ninguém para vigiar as malas
o ponto de encontro
e finalmente a desitência formal
a declaração do fracasso
o homem sem relógio
sem chaves
tem malas
e outra passagem
o aeroporto é um lugar de merda
de onde a gente volta para a rodoviária
era noite
pagou 11,10 por um hambúrguer
3,50 por um banho na rodoviária
surpresa
chuveiro estragado
como se as coisas estivessem dando certo
cansado demais para reclamar
andou pra dentro da água fria
respirou com dificuldade
por alguns minutos
quando saiu percebeu impassível que faltava um botão da camisa
procurou o cubículo fechado por dez minutos
nada
como se as coisas estivessem dando certo
voltou para o restaurante
onde os outros esperavam
voltou de cabeça baixa
como um idiota
procurando o botão
o chão escuro e o botão claro
havia uma chance
como se as coisas estivessem dando certo
avistou à distância uma coisa redonda
da cor do botão
mesmo tamanho do botão
na iminência de ser varrido por uma dona assobiante
numa manobra ousada
que atraiu olhares curiosos
apanhou o botão
que não era o botão
mas uma pequena peça de plástico
que ele nunca soube para que servia
e que guardou no bolso
para mostrar a todos
quando chegou na mesa
numa última e minguada tentativa
encontrou o botão aos pés de sua cadeira
sorriu
talvez não fosse tão ruim
ao levantar
para trocar de camisa no banheiro
ouviu o som de outro botão caindo
apanhou o mau agouro filho da puta antes que ele quicasse três vezes
de banho tomado
e camisa limpa
novamente sozinho na mesa
sentiu a cara inchar
mas tinha vergonha de chorar na frente dos outros
tinha vergonha até de tirar o caderninho da bolsa a cada tantos minutos
mas merecia qualquer tipo de privacidade
além de pensar em como seria chegar em casa pedindo as chaves de volta
ficou brincando com a pecinha de plástico que encontrara mais cedo
ela era inerte
imparcial
e confiável
ele assistiu com sono bandas decadentes na televisão
ele toma o ônibus
Rio back to Rio Doce
o mesmo motorista antipático
incrível
como se as coisas estivessem dando certo
encontra o quarto vazio
seus travesseiros já foram queimados
dorme
não sem inquietação
e grande alívio físico
acorda com um abraço
da garota do poema
as crianças do poema também entram no quarto
e ele ganha beijinhos
então duas semanas passam como se não tivesse acontecido nada
ou como se nada tivesse acontecido
ou como qualquer outra sopa de letrinhas que demonstre a falta de sentido, importância e significado das coisas
amei a foto.^^
o lugar q mais gosto dak
^^
bem eu na correria sem tempo p/ler.dps
^^
bjs