11/19/05
I
Alice
Ela tinha cabelos vermelhos, lisos e curtos. Não curtos demais, ou de menos. Cortados no tamanho dos de qualquer moleque. Cabelos bem colados na cabeça, num penteado que ela parecia manter fixo através da pura força de vontade. Com exceção da franja, que tinha a mania de se partir no meio - coisa que ela resolvia com um gesto gracioso, de tempos em tempos, passando os dedos em gestos hábeis pela testa.
Os olhos, que normalmente só paravam de passear curiosos para te desafiar diretamente, inquisitores, agora estavam um pouco fechados e voltados para baixo. Todo seu rosto se contraía de leve, salpicado por pequenas sardas cativantes, duas ou três espinhas e um rubor indisfarçável. A boca sorria sem mostrar os dentes. Alice estava envergonhada.
Envergonhada, ou sem jeito. Acanhada. Qualquer palavra que preceda o beijo. Estávamos sozinhos no meu quarto e, pelo andar da carruagem, aquilo já era esperado. Mas tão singelo, tão comovente, que minha boca - interrompendo um embrião de ósculo - perguntou por conta própria:
- Você está com vergonha?
Ela apenas fez que sim com a cabeça, transformando o sorriso num risinho contido.
Ou não o quê?!