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Mas por inúmeras condições, não se consegue mais construir cidades pela beleza, como nos séculos passados, porque urbanismo em sociedades industriais e democráticas é dificílimo fazer. Embora o sentimento de realização ao executar um trabalho desse seja enorme, a crítica também o é. É a arquitetura do espetáculo, é claro, que carrega a marca de seus criadores, dos empreendedores públicos ou privados e de seus arquitetos e engenheiros construtores.Há ainda muito da criatividade humana e de seu empenho em construir coisas belas, ainda que pontuais, e que digam "me ne frego" ao entorno. Mas os cidadãos as amam, delas se orgulham como se orgulhavam em séculos passados de suas catedrais.
Hoje os altos edifícios, os museus e teatros, as arenas multiespetáculos, as grandes pontes que realmente constituem a arquitetura do espetáculo merecem todos os nossos elogios por alterarem a imagem das cidades, lembrando que a beleza urbana faz parte do trabalho dos arquitetos, muito além de seus problemas funcionais e das questões sociais da população, que embora dramáticas e de solução indispensável para sociedades mais justas, estão fora do controle dos arquitetos, que só podem, como profissionais, atender ao que lhes demandam. Como cidadãos é outra coisa, mas como profissionais, nas questões sociais, nossa atuação é limitada. Podemos então ser modestos, não pretendemos sozinhos mudar o mundo, mas podemos e muito alterar a imagem dos locais em que vivemos. E esquecer o maldito qualificativo da "arquitetura do espetáculo", que na verdade é mesmo o espetáculo da arquitetura, que encanta e mesmo dentro das enormes dificuldades da vida nas metrópoles, torna orgulhosos os seus cidadãos da mesma forma que em séculos anteriores as catedrais maravilhavam os habitantes das aldeias.
Em meio ao que é chamado de arquitetura do espetáculo há muitos exemplos de boa arquitetura. Apenas para marcar diferentes épocas, lembramos do Guggenheim de Nova York, do Centro Pompidou, do HSBC de Pequim e do Lloyd's de Londres (os dois parecem catedrais de estrutura bastante sólida e economia em balanço), do Ninho de Pássaro (bastante firme), do Guggenheim de Bilbao e da Ópera de Sydney, estes últimos que colocaram uma cidade e um continente no mapa. Não é pouca coisa.
P.S. Deus, que segundo os parabrisas é fiel (se for homem, duvido), que perdoe os que perdem enormes oportunidades de trazerem beleza às cidades ao construírem os "neoclássicos", os também enormes shopping centers quando descambam para arquitetura remendada e despersonalizada, e as também mais enormes igrejas evangélicas, globais, mundiais e outras.
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Nos dias de hoje, ninguém se lembra mais disso, os franceses continuam pensando com o coração e votando com o bolso, e os grands boulevards espelham a sua beleza e facilitam o trânsito da cidade. Visionário Haussmann. Em um ataque de saudosismo poderíamos dizer que já não se faz mais cidades como antigamente, ainda que as cidades ainda sejam o maior exemplo da inventividade humana, se levadas em conta a sua complecidade e o infinito conjunto de trocas econômicas, sociais, mentais, científicas, tecnológicas, emocionais e tantas outras que os contatos de grupos menores ou maiores de pessoas proporcionam.
Naturalmente ainda são realizadas grandes operações urbanísticas que em certos casos alteram fortemente o funcionamento e, quando bem-sucedidas, a imagem de uma cidade. Como exemplo eu citaria as cidades subterrâneas no Canadá (uma resposta aos invernos dos infernos), e a artéria subterrânea de Boston, que transformou uma autoestrada elevada que cortava o centro da cidade em um enorme parque, valorizando todos os edifícios em volta e enterrando todo o tipo de trânsito - menos o aéreo, apesar da sugestão dos consultores lusitanos. Em clima menos frio, cito o aterro do Flamengo, no Rio, e a sempre lembrada Barcelona da olimpíada, casos em que os trabalhos só complementaram cidades que já eram maravilhosas.