Relato autobiográfico, Akira Kurosawa
6/20/09
Olhando para fora, vimos que a nuvem que cobrira a cratera exterior do Hakone começava a subir, e sobre o lago Ashinoko parecia haver um dragão nebuloso subindo aos céus em movimentos espiralados. Uma violenta rajada de vento soprou pela janela aberta e fez o pergaminho pendente do tokonoma sacudir. Olhamo-nos sem dizer palavra e, então, entramos impetuosamente em ação.
A partir daquele momento, tudo se tornou, nos vários sentidos da palavra, um drama de ação. Cada um agarrou uma peça do equipamento de que precisávamos, colocou-a no ombro ou arrastou-a pelo chão e saiu apressado da estalagem. A locação era próxima – apenas o equivalente a dois quarteirões e distância –, mas caminhamos contra aquele vento furioso como se o estivéssemos engolindo.
Na colina onde planejáramos filmar, o capim-dos-pampas já deveria ter produzido sementes. Entretanto, os talos fofos ainda ondulavam como o mar encrespado por um tufão. Acima de nossas cabeças, e em nosso favor, farrapos de nuvens corriam pelos céus. Eu não poderia ter pedido um cenário mais perfeito.
Atores e técnicos trabalharam como seres possessos nas garras do vento providencial. Sempre que terminávamos uma tomada que exigia nuvens correndo ao fundo, o céu limpava completamente, como se as nuvens tivessem sido varridas por passe de mágica. Continuamos a trabalhar no forte vendaval até três horas da tarde, sem parar um só minuto para descansar.
(sobre as gravações de Sugata Sanshirô)