mem.
5/1/09
E era assim que me encontrava: estirada na grande varanda que antecedia seu quarto, desnuda de roupas, mas sentindo o corpo arder, trajando o vermelho da vergonha. Humana, quente, ossos e realidade. Já haviam se passado três horas, desde a grande transformação e o suor da persistência escorria pela minha face esquerda, resultado de várias tentativas mal sucedidas de rolar para detrás da colonial construção. Sentia meus membros e mente latejarem em forma frenética. Antes, eu era só participante de um conto de fadas: pequena, rebota e alada. Meu corpo era formado das vertigens de um homem totalmente desvinculado de pensamentos que requerem qualquer noção da realidade mais a mistura aleatória das sete cores do arco-íris. Minha parte pensante, totalmente influenciada por delírios de um poeta louco, era habitada por feixes de luz que se entrelaçavam como idéias e desejos inconclusos: tantas idéias e tantos desejos que me levaram à vida.
Fiquei a imaginar quanto tempo levaria até que se dessem pela falta daquela que, até alguns instantes, coloria as páginas do grande volume que ocupava o centro da prateleira de livros do quarto da menina. Curiosa, mas ciente de prioridades, resolvi canalizar toda a minha energia interna em uma única função: desaparecer dali. Desacostumada de articulações funcionais, nua e sentindo pela falta das asas, fui tímida e desconsertadamente me esgueirando até o varal, de onde pendiam uma porção de roupas. Me vesti com uma calça curta e uma blusa laranja do tom daquela que seria, para sempre, a minha real data de nascimento.
Era estranho estar, pela primeira vez, em um cenário mais consistente do que uma folha de papel. Senti o verdadeiro cheiro da grama, toquei a água da pequena fonte que servia como moradia para alguns peixes sem ver minhas formas se desbotarem e fiquei surpresa ao notar que esses, estranhos e escamosos, haviam reagido a uma ação minha. Finalmente aquilo que fazia alterava um corpo físico. Estava saturada de idéias ilusionárias.
Continuei andando até a grande porteira que separava a fazenda da realidade exterior. Com um breve suspiro de ansiedade, me despedi do cenário que havia me tido como prisioneira de seus proprietários e como simples objeto de entretenimento inanimado. Mas, ao cruzar os trilhos férreos de correr e fechar irreversivelmente aquela que seria a barreira com a minha vida anterior, me arrependi.
E era assim que o mundo se encontrava: cheio de ação, excitado com a aparição daquela que se tornaria apenas mais uma sofredora. Tropecei em membros que jaziam solitários pelo chão e tudo aquilo que me rondava estava deteriorado. Pobreza. Fome. Sangue. Miséria. Idéias... não ilusionárias, mas indignas de existência mesmo em uma realidade paralela.
Avistei um casal que se amava pública e loucamente, enquanto ofensas dirigidas a eles eram vomitadas. Afinal, algo de verdadeiro. Me sentei ao seu lado, esperando uma quimera ou qualquer outro ser mitológico passar. Um pouco de nostalgia não faria mal, nesse caso.
Possuía na mente apenas uma idéia incisiva, me deparar com aquela figura que tinha mexido com a minha realidade tão comum e clichê. Uma realidade de garotinha rica e mimada. Poderia a analisar pelos quatro cantos dos olhos, sem dúvida uma personagem tão normal de ser ver andando pelas ruas, mas, tão estridente quando se trata de um mundo surreal. Sou uma amante da psicologia, a estante abarrotada de livros de psicanálise moderna. Por que conseguia identificar todas as angústias daquela mulher que rondava como maquiavelicamente o meu subconsciente? Alguém dotada de um bom coração; talvez uma brasileira como outra, em busca de uma vida melhor e um salário digno, com o pai doente e a mãe com Alzeimer em casa.
Passei a identificar uma série de pessoas iguais aquela mulher que um dia parou meus pensamentos fúteis e os transviou para uma realidade real. Sim, algo bastante redundante e absoluto, pois não era a realidade dos campos que eu sempre fui acostumada. Os olhos dela enxergavam em preto e branco, como era a maioria do cotidiano daqueles que amavam o que chamavam de pátria. Céticos. Ausentes.
Voltei para casa, estava iluminada não mais pelo sol, e sim pela falsa luz encoberta pela energia elétrica. Subi até o quarto. Olhei a minha volta e pensei em toda a tecnologia que meu quarto possuía, e no que aquela mulher fazia aquele momento. Liguei a minha TV de tela plana, 29 polegadas, pensando que os olhos daquela mulher poderiam ser iguais à imagem daquele invento da tecnologia moderna, de alta resolução, e principalmente a cores.