mas não foi - colagem digital e aquarela
Aquele olhar registrado na foto é uma contradição sem fim. Como estas palavras que começam a saltar de meus dedos. O céu. Mande notícias quando esquecer. Posso criar ou destruir um sentimento a qualquer instante? Qualquer amor por qualquer pessoa? Entender... quando você bem. Como manipular as emoções e acreditar que as pessoas mudam. Um dia. Perdidamente apaixonado por aquela que me avisava o tempo todo que eu não deveria. Mesmo assim, ainda devo. É assim que deveria ter sido. Mas não foi.
Ditas, suas palavras propriamente foram. Tanto quanto (mal)ditos eram os sonâmbulos que por aqui estiveram antes de mim. Difícil é conseguir sair de casa sem saber o que me espera do outro lado. Mais um lado. Mais uma história. De amor, simples, ingênua, criada para ferir e romper com aquilo que. Sem se preocupar em novas respostas para velhas perguntas. Uma linda poesia interpretada apenas por aqueles que não mais vivem. Jamais seria revelada. Ao menos, não deveria. Quem é que ainda não sente o medo incessante da experiência já vivida? E da certeza de um fim novamente subentendido? Permanece, o sentido incerto. Como aquele olhar da primeira foto. Um segundo para durar uma vida inteira. Bom se fosse. Mas não.
Durante cinqüenta e nove segundos a imagem permanecia, como uma belíssima e eloqüente canção. Alcançar a substância do tempo, subtrair-se de sua lei, apreender a essência de uma realidade escondida no inconsciente. E recriada por mim mesmo. Ainda estava lá a velha parede. O velho jardim, as velhas andorinhas, a velha figura solitária. A figura sabia da minha presença naquele lugar à medida que eu avançava. Uma voz feminina. Meu nome. Ela havia mudado, mas conservava tudo aquilo que um dia provocava tanta. Contemplação. Não a mesma, melancolicamente mais suave, majestosa e leve. Vem aqui muitas vezes, Sophie? Nunca voltei desde então. Nem eu. O silêncio empurrava-me para perto dela. Notei lágrimas que dos seus olhos caíam. Estava sem nada mais, pouco a pouco, em todos estes miseráveis anos. Afinal, não deixavam de ser. O último observatório no qual se podia abraçar a própria vida num instante.
Toda vez que a amo, quando a amo, retorno a abandoná-la. A resultante imediata do amor não é senão uma espécie de instrumento óptico que nos faz discernir aquilo que, sem o ser amado, talvez não pudéssemos ver sozinhos. Mas nem por isso deixa de persistir. A história que trago aqui certamente não passa de uma invenção maliciosa, mas representa um pouco do vasto imaginário de um indivíduo (eu) a um coletivo (você), um dos sinais pelos quais se distingue o homem de uma vida que era, ou deveria ser, propriamente sua. Trata-se, primeiramente, de um contexto onde todos fogem do descanso e do sono, assaltando o próprio tempo e alimentando um grande e irremediável engano. Em outras palavras, correr, tropeçar e segurar o choro. Para não perder de vista o olhar glacial de um anjo, uma divindade.
[marcos beccari] - texto de um possível novo livro. Ilustração para capa do livro "Amanhã. Com sorvete." de Assionara Souza.
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