9/19/09
copos de leite – grafite, nanquim e aquarela
No entanto estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo, e queria? Mas seu calabouço branco, embora cercado de muros por todos os lados, era um cenário afável e deslumbrante. Suzanne sabia disso há muito tempo. Durante todo este último ano, o calabouço branco a atraía irresistivelmente. E a cada dia ampliava-se em seus lábios aquele gosto de leite mofando, líquido doentio guardado no fundo escuro de alguma geladeira quebrada. Suzanne não podia imaginar um final melhor para o romance de sua vida.
Não havia nada errado com o seu coração nem com o seu corpo, muito menos com o seu cérebro. Mas não é no cérebro que acho que tenho o câncer, doutor, é na alma. Se o teu futuro é inevitável, Suzanne, por que não aperta o gatilho metálico ou não arranca a sua própria pele? Um leite mofado - e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca? Permaneça suavemente drogada, suficientemente adormecida para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, emoções cálidas, angústias fúteis, fantasias mórbidas e memórias inúteis, afinal a senhorita ainda é jovem. Tudo já passou e minha vida não passa de um ontem mal resolvido e não se faça de surda. Foi quando veio a náusea, só o tempo de caminhar até o banheiro e vomitar aos roncos e arquejos, Suzanne abria as pernas onde a penugem se adensava em pêlos negros, um calor molhado lá dentro. Neurônios arrebentados e a mão nada delicada acariciando as minhas veias até incharem, quase obscenas, latejando um azul-claro sob a pele. Quando te aplico assim com a agulha lá no fundo, às vezes chego a pensar que. Noites sem dormir e a luz do dia esverdeando as caras pálidas e as peles secas desidratadas e as vozes roucas de tanto falar e fumar e falar e fumar. Vomitei mais. Nojo, saudade. No meio do vômito podia distinguir aqui e ali o leite boiando, esverdeado pelo mofo. Suzanne, quando é que vai entender que não está mais no outro lado do espelho? Abriu a sua boca sangrenta, feito um vento preso numa caixa com aquele horrível cheiro de leite guardado há muito tempo, como um vento vindo do mar, um mar anterior, um mar quase infinito onde nenhuma gota é passado, nenhuma gota é futuro, todo o presente é imóvel e em ação contínua e o mofo de leite. O vento fresco da madrugada embalava as cortinas brancas e não adianta chorar Suzanne, já falei que é loucura, pára de bater essas malditas carreiras, teu nariz vai acabar furando. Desligou a televisão e saiu para o terraço de plantas empoeiradas que fermentavam o gosto nojento em sua língua. Bastava um leve impulso. Debruçou-se no parapeito, entrevada, morta da cintura para dentro.
Debruçada no terraço, Suzanne olhou primeiro para cima - e viu que o azul do céu quase preto se fazia anil cada vez mais claro em direção ao horizonte, se houvesse horizonte, em todo caso atrás dos últimos prédios. Debruçada no terraço, amanhecia. Não havia rumores de carros ou pessoas. E se alguém realmente e finalmente apertou o gatilho? E se aquele anil-claro no sucedâneo de horizonte fosse a cor por debaixo da sua pele? E se ela estava dormindo quando tudo aconteceu? Estaria Suzanne sozinha na cidade, no país, no continente, no planeta? Sabia que não. Para dizer a verdade não era um pensamento nem uma emoção, nem culpa alguma, o sol apenas estava nascendo. Suzanne unia as duas mãos no sexo, no ventre, no peito e no rosto, elevando-as acima da cabeça. O gosto mofado de leite havia desaparecido. Abriu os dedos lentamente. Absolutamente calma, absolutamente clara, absolutamente só enquanto observava os canteiros de cimento: será possível plantar copos de leite aqui? Eu só queria apagá-la da memória, para que ficasse apenas o tempo imaculado de uma nostalgia eterna. Mas sobre este idílio, Suzanne colocou-se como uma mancha.
[marcos beccari] - copos de leite fresco se estilhaçam pelo chão.