Ele se lembrava de quando a tinha conhecido no primário, quando puxava as tranças que já pequena ela fazia delicadamente todo dia em frente ao espelho; e mais tarde no ginásio, quando propositalmente dizia que ela namorava Daniel, o pirralho da sala, simplesmente para camuflar a própria paixão juvenil que sentia por ela.
-Lembra quando lhe disse que se eu tivesse nove vidas, nas nove iria querer lhe ter do mesmo jeito?
-Claro. Mas de que se serve querer nas outras, se nessa a vontade parece estar morta?
-Não dá para medir o sentimento do outro com a própria régua.
-Nisso nenhum de nós tem culpa; é o único jeito que cada um de nós dispõe.
Ela colocava algumas roupas na bolsa de viagem. Esperava que com isso ele percebesse a proporção da situação, já que ela tinha usado a exata mesma bolsa quando se mudou para o apartamento dele, há quase dois anos atrás. Colocou a foto da viagem para o Chile no bolso da frente, mas deixou outra, a da viagem à Petrópolis, onde conheceu os avôs dele no aniversário de 60 anos do casamento.
-Para onde você vai?
-Vou decidir ainda. Talvez vá para a casa da Verônica. Ou quem sabe, Chile, se eu precisar.
-Vai ser horrível para você lá.
-Lá onde: na Verônica ou no Chile?
-Quis dizer na Verônica, mas obviamente no Chile também.
Ele foi à cozinha e viu o vinho de ontem, parcialmente bebido na geladeira. Não tinha visto nada de anormal nela, enquanto viam a um filme tarde da noite, a não ser a já habitual falta de atenção dela dos últimos tempos.
-Me desculpe.
-Pelo que?
-Por você estar indo embora.
-Pelo que você acha, agora, que estou indo embora?
-Por que acabei jogando fora o melhor momento de nossas vidas.
Ela parou. Então olhou para ele e depois para o chão. Sentou na cama, quase em cima de uma das roupas que iria colocar na bolsa.
-Estranho você dizer isso...
-Isso o quê? As desculpas?
-Não, seu pensamento. Foi o que pensei antes de decidir, mas sentia que era eu quem tinha estragado.
-O que há nas nossas cabeças para, se não é querer estragar tudo, é achar que vamos?
-Não sei. Vai ver tentamos achar como o outro é antes do outro se mostrar quem é. Quando damos fé, a pessoa que temos para a gente não é a mesma que está junto a nós. E não por culpa dela, mas pela nossa.
-Parecemos, um para o outro, mais difíceis de entender do que somos na verdade.
-Sim. E talvez essa seja a beleza e a perdição do amor.
-Você acha que deveríamos ser menos inventores?
-Acho que devemos ser mais reais.
Ele saiu, foi à sala e pegou a foto de Petrópolis, foi à cozinha e pegou a garrafa com o vinho restante. Colocou as coisas na bolsa e tirou a da viagem ao Chile.
-Porque você fez isso? - ela perguntou
-Se for para você ir embora, que vá com meu eu mais real, o meu eu não temerário.
Ela se virou, olhou essas coisas dentro da bolsa e depois olhou para o rosto dele, que tinha uma expressão de firmeza quase se desmanchando. Ela se levantou, tirou as coisas da bolsa, abraçou-o e, puxando-o, deitou a ambos na cama.
-O que é isso? - ele perguntou
-Num mundo onde eu quero que só você me entenda, eu me rendo. Isso sou eu, me tornando real e te amando para sempre.
Photo uploaded at 1:11 AM